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Ser pai é muito mais que ser um herói…

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Luiz Carlos de Moraes junto dos quatro filhos

 

Às vezes fica difícil mensurar em palavras o que algumas entrevistas nos proporcionam. Explicar aos leitores como é, de fato, cada detalhe do lugar ou da história contada por nossos personagens é um desafio. Impossível nos desprender da carga emocional e dos contrastes sociais de cada uma, afinal somos humanos. Somos pais e mães também. Mais difícil ainda transcrever estes recortes sem que eles pareçam mais uma simples história.
Para nós, cada uma delas é singular dentro do cenário em que acontecem, mas ao mesmo tempo podem ser similares as histórias vividas por vocês que nos lêem. Por isso, a reportagem especial de Dia dos Pais da Folha de hoje traz três histórias. Cada uma com suas particularidades, com a sua realidade e o seu jeito de vida, mas todas com algo em comum: o amor incondicional dos pais pelos filhos.

NICOLE CAVALLIN

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Um amor que venceu desafios

Os gremistas, Andrei, de 12 anos, Aldemir e Claudemir, de 8 anos, e Gabriel Zotti de Moraes, de 7 anos, são os bens mais preciosos da vida de Seu Luiz Carlos, um homem humilde, que aos 43 anos cria os filhos sozinho e luta para que eles tenham um futuro um pouco melhor que o seu.
Acomodado em uma cadeira ao lado da pia da cozinha e fumando seu cigarro de palha, Seu Luiz contou um pouco da sua história e disse que atualmente, conta com a renda do salário do seguro desemprego e com o que ganha fazendo “bicos” na limpeza de pátios, pois a fábrica de móveis onde trabalhava faliu.
Também falou em detalhes sobre o nascimento dos gêmeos, Aldemir e Claudemir – ou “O Gordo e o Magro”, apelido carinhoso que usam em casa. “Fiquei no hospital esperando eles nascerem. Um nasceu faltando dez minutos para as nove horas e o outro às nove e dois. Doze minutos de diferença. O Magro pesou dois quilos quatrocentos e vinte e cinco gramas e o Gordo dois quilos e meio”, lembrou.
“Os menores ficam na escola o dia todo até para eu poder trabalhar. O mais velho também frequenta o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). O que eu não fiz quero que eles façam. O estudo é a primeira coisa. Quero que eles estudem, que eles cursem alguma coisa que eles gostem, que sigam uma profissão”.
Seu Luiz vem de uma família de 23 irmãos e foi criado no interior de Canela, na Linha São João. Lá também viveu por um tempo com a esposa, que na época era dependente de álcool, assim como ele foi até quatro anos atrás, quando decidiu buscar um tratamento médico para poder brigar pela guarda dos filhos na justiça. “Tive que botar um advogado. Gastei o que tinha e o que não tinha e não me arrependo de nada”.
Hoje, ele mora em uma pequena rua ao lado do Cemitério Ecumênico Parque das Araucárias, onde vive com os quatro filhos há cinco meses. Antes disso, os meninos passaram cerca de três anos e meio morando na Casa Lar. “A cada dois, três dias eu ia lá para ver eles ou espiava eles pela cerca. Nunca deixei de ir ver eles”, conta.
“A gente tem que ser humano. Não importa se é homem ou mulher”, respondeu Seu Luiz ao ser questionado sobre a facilidade de criação dos filhos por serem todos homens, como ele. “Não teria diferença se fosse mulher. Fiquei nove anos junto com a minha ex-mulher e criei mais quatro filhas dela”.
“Eu nunca tive pai. Me abandonaram. O cara ser um pai é o que eu tô fazendo. Não é porque eu sou homem que seria diferente. Ser pai é assumir os filhos. Abraçá-los. Trabalhar e lutar por eles porque eles não vieram sozinhos. O que tiver que fazer pelos meus filhos eu faço”.

 

Pai de primeira viagem

José Humberto Carvalho e o filho, Bernardo Prezzi de Carvalho, aos 23 dias de vida

Desde abril do ano passado, a chegada do futuro colorado, Bernardo Prezzi de Carvalho vinha sendo programada. No entanto, o garotão nasceu três semanas antes do previsto, de parto cesárea. Mais precisamente, na madrugada do dia 16 de julho deste ano, depois do primeiro jogo da semifinal da Libertadores, entre o Tigres e o Internacional, no Beira Rio.
“Eu cheguei do jogo e fomos para o hospital. Lá, a Valentina tomou alguns medicamentos para conter as contrações, que estavam acontecendo desde a uma hora da manhã, mas não teve jeito. A dor não passava e era hora dele chegar”, lembrou o dentista, José Humberto Carvalho, ou Betinho, como é conhecido.
Com o pequeno Bernardo nos braços, Betinho conta que está junto com a esposa, a advogada, Valentina Prezzi de Carvallho há mais de onze anos e sempre pensaram em ter filhos. “Pretendemos ter mais. Eu queria ter gêmeos e ela quer mais um”, diz ele.
Como todo pai de primeira viagem, Betinho já tem história sobre a primeira travessura do filho. “Ele tinha dois de vida quando eu e a Valentina demos o primeiro banho em casa. Preparamos tudo e tiramos a roupinha dele. Quando segurei ele pelos bracinhos, a Valentina olhou para mim e começou a rir. Eu perguntei: “O que foi?”e olhei para baixo. Aí vi que ele estava fazendo xixi em mim”, lembrou rindo da situação.
No próximo domingo, 09 de agosto, Betinho comemorará seu primeiro dia dos pais e os 23 dias de vida de Bernardo. “Ser pai está sendo uma experiência maravilhosa. Vou trabalhar já pensando em voltar para casa. Acredito que nossos extintos afloram. Qualquer coisa de diferente que acontece com ele já ficamos atentos. E automaticamente, pensamos nas coisas boas para ele em primeiro lugar e não só na gente como era antes”.

Amor à primeira vista: paternidade e adoção

Maurício e Douglas durante passeio em Gramado, no Parque Joaquina Rita Bier

“12 de junho. Dia Mundial de Combate ao Trabalho Infantil”, dizia o adesivo colado no armário, que fica ao lado da mesa de Maurício Mota Viegas, na Delegacia de Polícia, onde nos recebeu. O inspetor conta que o processo de adoção do filho foi bem rápido. “Apesar de toda a burocracia e eu ainda querer ser pai solteiro, em questão de um ano ele já estava morando comigo. Mas, claro, que o fato dele já ter dez anos, na época, favoreceu muito. Era para ser”.
Maurício diz que nunca tinha pensado em adotar uma criança antes de conhecer Douglas e que se encantou pelo menino. “Conheci o Douglas em 2013, durante um trabalho voluntário que eu fazia na Casa Lar. Foi amor à primeira vista, mesmo”.
“Quando decidi adotá-lo fiquei um tempo sem ir até o abrigo, até mesmo para não criar expectativas a ele, caso a adoção não desse certo. Depois ganhei judicialmente o direito de fazer as primeiras visitas e em seguida a guarda provisória, a qual tenho nestes dois anos em que o Douglas mora comigo”.
Para o pai de Douglas é difícil colocar em palavras o que é ser pai. “Ser pai ainda está sendo um aprendizado. Acredito que para mim tenha sido ainda mais difícil do que para ele. É uma coisa que muda tua vida inteira. Primeiro tu pensa no teu filho e depois em ti. O amor é incondicional e na adoção acredito que seja mais ainda. Acho que ser pai é tu dar amor, segurança para aquele ser. É tua continuidade. É o que fica e o que importa”.