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Mudança no perfil da população de Canela tem impacto nos custos do Município

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Dados das matrículas nas escolas municipais mostram que Canela tem recebido migração de diversos locais do país e até do exterior

CENÁRIO I
Enquanto a reportagem da Folha buscava dados para esta matéria, a Secretaria Municipal de Educação atendia uma nova moradora de Canela. Com 22 anos, oriunda de Santa Maria, a mulher é mãe de cinco filhos, o mais velho com seis anos de idade.
A nova moradora, que está residindo no Chacrão chegou até a Secretaria de Educação encaminhada por um assistente social, tentando vaga na educação infantil para seus filhos. Eles deverão ser matriculados na escola infantil Adriana Spall, que está em fase de conclusão e deverá abrir vagas para 250 crianças no prédio da antiga Export Luvas, no bairro Palace Hotel.
Somente estes cinco novos alunos trarão um custo para o município de aproximadamente R$ 4 mil.

CENÁRIO II
Na semana passada, a guarnição do Corpo de Bombeiros de Canela foi acionada para atender uma ocorrência em uma área invadida, conhecida como Adão Miroti. A reportagem da Folha se deslocou para acompanhar o atendimento dos bombeiros.
Ao chegar no local, o caminhão não pode seguir junto ao efetivo, pois o local do acidente ficava em uma viela de chão batido que permitia, de maneira arriscada, apenas a passagem de veículos. Desta forma, a ambulância do SAMU se dirigiu até perto do local.
Na ocorrência, um homem havia caído do telhado, enquanto construía sua casa, na última viela da área invadida. Ao redor, pelo menos mais cinco construções estavam em andamento. Essa área invadida já conta com ruas abertas pelos moradores, cortando a área verde e os barrancos.
Num cálculo aproximado, mais de 50 casas já foram erguidas, sem rede de abastecimento de água e energia elétrica, sem falar no saneamento.
O homem que caiu do telhado foi encaminhado ao Hospital de Canela para atendimento.

Foto: Francisco Rocha

CENÁRIO III
Ainda esta semana, por volta das 18h, o centro de Canela vivia seu horário de maior fluxo, com diversas pessoas deixando o trabalho, indo ao mercado e voltando para suas residências. O passeio público, em frente ao Mercado Brombatti, estava tomado por vendedores ambulantes, que ofereciam panos de prato, relógios e uma série de bugigangas.
Próximo dali, na Praça João Corrêa, mais ambulantes. A maioria, pessoas que se mudaram para Canela buscando uma melhor qualidade de vida e acabam na informalidade por não conseguir colocação profissional na região.
Por outro lado, muitos dos migrantes que conseguem emprego, trabalham em Gramado, deixando para Canela o custo social de saúde e educação, entre outros.

Foto: Filipe Rocha

Dados da Educação comprovam mudança no perfil de quem vem morar em Canela

Foto: Reprodução

Recentemente, a Secretaria Municipal de Educação concluiu uma estatística que mostra a mudança do perfil da migração que Canela recebe. Até poucos anos atrás, a maior migração na cidade era oriunda de cidades dos Campos de Cima da Serra, como Cambará, Bom Jesus e São José dos Ausentes.
Com a mudança do panorama econômico em todo o Brasil e com Canela se projetando no cenário turístico, pessoas dos mais variados lugares têm procurado a cidade em busca de uma melhor oportunidade de vida.
É necessário registrar que nem todas esses novos moradores estão irregulares, como frisa o próprio prefeito Constantino Orsolin.
“Todo cidadão tem direito de ir e vir. O poder público tem trabalhado para estancar os loteamentos irregulares, as invasões de área, a criação de novos loteamentos, além de promover a legalização de áreas públicas e privadas. Nessa questão, temos de agradecer o auxílio da Polícia Civil, Ministério Público, Defensoria Pública e Brigada Militar. Mas nem todo cidadão que vem morar em Canela não tem condições econômicas, possuímos um grande número de pessoas que aqui se instalaram e vem contribuindo com o desenvolvimento do município”, disse Orsolin.
Perguntado sobre quando a Prefeitura identificou essa mudança no perfil dos novos moradores, o prefeito explicou que quando recebeu os dados da Secretaria de Saúde, mostrando 61.349 novos cadastros, solicitou à Secretaria de Educação os dados dos alunos novos e as informações confirmaram o grande número de estudantes que vieram de outros municípios.

REEDUCAÇÃO DO CANELENSE
Essa nova demanda nos serviços municipais trazem mais gastos para o Município, como concorda o prefeito Constantino ao afirmar que o poder público arca com mais vagas na educação infantil, ensino fundamental, problemas na saúde, de moradia, dentre outros.
Além disso, é necessário qualificar essa mão de obra para a realidade local, evitando que caiam na informalidade e em subempregos.
A questão da educação ambiental e o aumento da população também são preocupantes. Recentemente a Folha de Canela trouxe duas reportagens mostrando que a cidade recicla apenas 5% de seu lixo e que 2018 teve um aumento significativo no número de nascimentos no Hospital de Caridade de Canela.
A reeducação deste novo canelense é um desafio para essa e para as administrações futuras.

Foto: Francisco Rocha – Falta de costume em separação do lixo é uma questão de educação ambiental e a migração pode estar contribuindo para a falta desta consciência

O QUE DIZEM AS ESTATÍSTICAS:
O prefeito Constantino Orsolin diz que “Canela é uma cidade onde a qualidade de vida é muito elogiada, as diversas opções de emprego e a segurança, comparada a outros municípios, encantam a todos”, justificando esta vinda de famílias de outras regiões do país. Confira o que dizem as estatísticas da Secretaria de Educação.

Educação infantil
Foram 56 alunos matriculados na educação infantil da rede municipal em 2017, oriundos de 30 diferentes cidades de oito diferentes estados. Neste ano, Caxias do Sul, com 13 alunos, e Gramado, com 12, foram as cidades que mais tiveram transferências para Canela.
Já em 2018 a situação mudou. Nem chegamos à metade do ano e já são 73 alunos matriculados na educação infantil, vindos de 40 cidades, de nove diferentes estados, além dos países do Haiti e Espanha.
Confira os gráficos de 2017 e 2018 respectivamente:

Ensino Fundamental:
Em 2017, no ensino fundamental da rede municipal, foram 119 novos alunos vindos de fora de Canela. As cidades campeãs de transferência foram São Francisco de Paula, 15 alunos, e Gramado, com 15, mas, ainda, contribuíram para este aumento das estatísticas outras 40 cidades de nove estados do Brasil, além dos países do Haiti e Uruguai.
Em 2018, até o momento, foram 127 novos alunos, vindos de 54 cidades de 13 diferentes estados, além do Haiti.

Confira os gráficos de 2017 e 2018 respectivamente:

Fica evidente, pela própria busca de informações que a Prefeitura Municipal de Canela sobre a migração, que a Administração conhece a realidade e está preocupada.
Canela necessita de uma política pública de planejamento e pensar a cidade para muitos anos a frente, não apenas para suprir o número de vagas na educação, mas sobre saúde, assistência social e ordenamento territorial.
Caso não faça, o crescimento descontrolado pode cobrar um preço muito alto dos canelenses no futuro.