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De Prosa e Verso por Fabiano Hanel: O Jogo do Bicho

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Nesta volteada vamos camperear a história do jogo do bicho. A quem diga que é o único jogo honesto, eu não duvido. Não jogo nenhum, mas a história do jogo é muito peculiar.
Na obra de Sejanes Dornelles, “Causos da Querência – Literatura Oral” encontrei o registro do jogo.
“Como toda a gente sabe, o jogo é bem brasileiro. Foi o Barão de Drumond quem criou e mantinha, no Rio de Janeiro, o jardim zoológico. Recebia uma subvenção do governo para alimentar a bicharada. A verba foi cortada por economia (conhecemos bem esta história). Os bichos estavam a ponto de morrer por inanição. O Barão pensava até em fechar o zoo. Então um empregado mexicano, Manoel Ismael Zevada, bolou uma ideia salvadora. Expôs o seu plano e o Barão topou. Mandou desenhar nas entradas as figuras de vinte e cinco animais escolhidos entre os que possuía. As entradas passaram a custar um mil réis. À tardinha, hora de fechar, era erguido num painel, a figura do bicho do dia. Quem acertava, recebia vinte mil réis. O jogo pegou firme. O zoológico venceu à crise.”
Há ainda outra versão do jogo do bicho – o de campanha.
– Senhores! Saiu…. Tal bicho….
Quem acertava na tampa recebia vinte vezes mais.
Todos queriam acertar, mas não era fácil. Certa feita, uns espertos bisparam que o velho, que era solteirão, vivia só mas tinha um guri já taludo, que lhe ajudava na venda. O guri era vivo e alfabetizado. Eles então chamaram o piá à parte e fizeram uma proposta tentadora:
– Vem cá, guri, se tu espiá o nome do bicho que o velho escreve do papel antes de entregá o vidro pro comissário e nos avisá, tu ganha uns bons cobres e um petiço corredor.
O guri aceitou a oferta. Escondido entre umas bolsas de erva espiou quando velho, com muito cuidado e escondido, escrevia o nome do bicho daquela semana. Da posição em que estava também escondido do velho, não pôde ver bem. Mas algo bispou. Foi logo ao encontro dos espertos, conforme o combinado.
– Olha, eu não pude ver bem o nome do bicho, mas garanto que começa com “A”.
– Tu tens certeza, guri?
– Mas claro que tenho. Seu moço. É um “A” a primeira letra.
Com essa informação segura, os espertos apostaram o que tinham para quebrar a banca. Além disso espalharam a notícia por toda Rosário e arredores. Nessa semana, o pessoal jogou forte na águia e na avestruz, que eram os únicos da lista do bolicheiro que iniciavam com “A”.
Quando foi domingo, o bolicho ficou apinhado de gente. Todo mundo tinha apostado na águia ou na avestruz. Sabiam certo que quebrariam a banca e receber uma boa soma.
O velho veio ao balcão. Recebeu o vidro das mão do comissário. E com muita calma, com a maior tranquilidade abriu devagarinho o papel. Olhou para todos, pigarreou forte, limpou o peito e lascou….
– Senhores…. (Fez uma pausa) saiu o “a… lifante”!…
Foi como um raio seco.
E assim são algumas das nossas histórias aqui no Rio Grande. Muito criativo e muito faceiro, o gaúcho, assim como todos nós brasileiros, carregamos uma dose muito considerável de bom humor e criatividade, afinal, em tempos de tantas adversidades, falcatruas e desonestidade, sempre é bom um sorriso e uma grande dose de esperança.

Mil gracias