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Gato Preto, Cabo de Aço e Maragato: você conhece estes locais em Canela?

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Saiba como estas localidades fizeram parte da história e contribuíram para a formação da cidade atual

• Francisco Rocha • [email protected]

A Folha de Canela inicia uma série de reportagens para mostrar locais conhecidos (ou não) fora do eixo normal da cidade. Nomes curiosos, lindas paisagens e uma história praticamente esquecida, mas que foram muito importantes na caminhada canelense.
Pode acreditar, poucos destes nomes você vai encontrar no GPS, mas, com certeza já passou por eles, ou avistou no horizonte, sem nem mesmo saber o que são.
Escolhemos, para começar a série, um pedaço da cidade conhecido por um famoso ponto turístico, a Ferradura, muito citada pelo prefeito Constantino Orsolin nas suas últimas entrevistas, pelo desejo de levar o asfalto até a entrada do parque com o mesmo nome, o que renderia uma compensação social para o Município.

Foto: Francisco Rocha – Dilema de Azevedo da Silva nasceu no Cabo de Aço

Cabo de Aço
Quem chega ao mirante do Parque da Ferradura e contempla o vale, repleto de belezas naturais, nem imagina que ali já foi uma das vilas mais prósperas de Canela. Cerca de um quilômetro abaixo do mirante ficava o cabo de aço, que era utilizado para transportar toras de pinheiro de um lado ao outro do vale cortado pelo então Rio Santa Cruz, hoje Rio Caí.
Do mirante, de frente para o Rio, à direita fica em território de São Francisco de Paula e à esquerda Canela. Toda a madeira extraída, desde o Juá, Muniz e Cadeinha, viajava de tirolesa e chegava no local conhecido como Cabo de Aço. Ali funcionava também um depósito, de onde a madeira era transportada em carretas puxadas por mulas até o centro de Canela, tendo como destino o Vale do Sinos.
Leodoro de Azevedo era o homem responsável por gerenciar o cabo de aço e o depósito de madeira. O mesmo homem que dá nome ao bairro do centro da cidade.
Nossa reportagem encontrou com Dilema de Azevedo da Silva, 78 anos, filha de Leodoro. Ela nos contou que nasceu no Cabo de Aço, que as atividades iniciaram no local por volta de 1935 e duraram até 1950, movimentando dezenas de famílias na extração da madeira.

Limeira
Mais tarde, Azevedo e família vieram para Limeira, onde Leodoro trabalhou como subdelegado, teve um salão de baile e batalhou para a construção de uma escola na localidade. “Eram 52 crianças na escola, incluindo eu e meus irmãos, vindos do Gato Preto, Tubiana, Banhado Grande e Limeira”, conta Dilema, “a primeira professora foi Marta Wotmann, sogra do ex-prefeito Günther Schlieper”.
Leodoro foi ainda fundador do PMDB em Canela e promoveu vários comícios nas localidades rurais.

Foto: Acervo pessoal/Divino Cavalli – Algumas das famílias que moravam nas localidades, como os Cavalli, Azevedo, Cardoso (Maragato), em mutirão para limpeza da lavoura de milho

O carreteiro
Não tem como falar da Limeira sem citar Divino Cavalli. Aos 81 anos, ele ainda pratica tiro de laço e compete em rodeios. “Serviço não mata coisa nenhuma, comecei a trabalhar aos 10 anos na roça”, conta, sorridente, ao lado de sua esposa, Jaci, 80 anos.
Chegamos a ter 57 famílias nos arredores da Limeira, por volta de 1950”, conta Cavalli, que ainda tem as terras na Limeira. “Nós plantávamos alfafa, batata, milho, feijão, cevada e trigo, entre outras coisas. No alto da estrada da Limeira ficava um depósito que reunia colheita de todas as famílias. Eu, com 15 anos, era o carreteiro e trazia cerca de uma tonelada de carga para Canela, junto de meu pai, Antônio Cavalli. Vendíamos e trocávamos mantimentos, que eram levados de volta às famílias”.
Há 40 anos Divino reside na Santa Terezinha, em Canela, mas ainda mantém as terras na Limeira. “De 37 famílias que lá produziam, hoje apenas nós (Cavalli), os Cardoso (Maragato), os Souza e os Nunes, mantém suas propriedades”, conta.

Foto: Francisco Rocha – Divino e Jaci Cavalli, ela também natural da localidade de Limeira

Sobre o nome de Limeira? Diz Cavalli que as primeiras trilhas abertas na região eram caminhos de pescadores para chegar até o Rio Santa Cruz. Em uma destas picadas foi encontrada uma limeira, árvore frutífera que não é nativa da região. Por se destacar do restante da vegetação, a árvore deu nome à trilha, à estrada e à localidade de Limeira.

Maragato
A Revolução Federalista, conflagrou o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná entre fevereiro de 1893 e agosto de 1895. O conflito envolveu amplas forças militares locais, os chamados “maragatos” (lenços vermelhos), e republicanos partidários de Júlio de Castilhos, os “pica-paus” ou “chimangos” (lenços brancos).
Quem pensa que estas peleias passaram longe de Canela, engana-se, alguns fatos aconteceram em terras hoje pertencentes ao município e outras vizinhas, como Caxias do Sul e São Francisco de Paula, aqui, do ladinho.
Uma prova da passagem da Revolução Federalista por estas “plagas” é uma localidade que ficou conhecida por Maragato, ou Maragata. Ali, o patriarca da família Cardozo (hoje aportuguesada e escrita com ‘s’), Luizinho, estabeleceu morada, ao final da guerra civil. Ele teria lutado nas tropas de Belizário Baptista Soares, um rico fazendeiro e comandante do grupo de maragatos, com sede no Campo do Raposo, em Caxias do Sul. Luizinho tem muitos descendentes que ainda moram em Canela.
O local fica abaixo da Limeira, literalmente o fim da estrada, poucos metros distantes da margem do Rio Santa Cruz, no território canelense.

Gato Preto
A localidade de Gato Preto e a estrada de mesmo nome fica entre a estrada da Ferradura e a estrada do Banhado Grande. Reza a lenda que nesta estrada morava uma família que se mudou do local e deixou para trás as casas que viraram tapera. Todos moradores foram embora, menos um, um gato preto que era avistado por quem passava na estrada.
O nome do lugar passou então a fazer referência ao bichano solitário.

Foto: Francisco Rocha

Pintado, queimado, mimoso e mascarado
Estes eram os nomes dos terneiros que viraram as juntas de boi que Valtuir Cardoso (foto), hoje com 74 anos, utilizava para carregar madeira do Cabo de Aço até o alto da limeira.
O pessoal respeitava muito a gente, isso pelo apelido de Maragato, era até engraçado”, conta, dizendo que tanto seu pai, Alexandre, quanto seu avô, Luiz, participaram da Revolução Federalista, recebendo eles e a as terras onde hoje têm sítio, o nome com referência ao lenço vermelho.
Mas estes Cardoso são de origem italiana. “Nossas primeiras casas eram de pau a pique, tudo foi muito trabalhado”, diz Valtuir, que está aposentado e se dedica a cuidar de uma pequena plantação em uma propriedade no Saqui.
A gente corria o Canela da época, vendendo batata, feijão e milho, tudo na carreta com a junta de boi, era tudo muito diferente do que é hoje, ali, em frente a Forrageira era um laguinho. Depois, a gente fazia a cesta e descia pela estrada do Caracol”.
Ao final da entrevista, pachola, o descente dos maragatos prometeu voltar com um regalo, colhido de sua horta.

Tem uma sugestão de local para ser visitado?
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* Colaborou com a matéria, Marcelo Wasen Veeck