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Museu Histórico Farroupilha se prepara para receber acervo de mil peças

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Doação foi feita por colecionador gaúcho que reside no Rio Grande do Norte

Na primeira Capital da República Rio-Grandense, Piratini, uma instituição de mais de seis décadas guarda um acervo que ajuda a entender a construção da identidade gaúcha: o Museu Histórico Farroupilha. O museu já completou 66 anos e sua diretora não poderia prever que um contato mediado pelas redes sociais resultaria numa doação de peso para ampliar este acervo, que conta atualmente com cerca de 600 peças. Um gaúcho aficionado pela saga farroupilha se colocava à disposição para doar materiais da mais alta cotação histórica: 988 peças, resultado de mais de 20 anos de colecionismo.

Desde maio de 2019, Volnir Júnior dos Santos, gaúcho de São Francisco de Paula, conhecido nas redes sociais como Tche Voni, sinalizava o desejo de doar o acervo para o Museu Farroupilha. Foi quando a diretora do Museu, Francieli Domingues, passou a estreitar contato com o empresário do ramo hoteleiro, que vive há 19 anos em Natal, no Rio Grande do Norte.

A motivação para doar o acervo é transcendente, explica Volnir: “tudo começou com o propósito espiritual e pessoal em aprender sobre a República Rio-Grandense. Nunca acreditei que foi só pelo preço do charque [os altos impostos sobre o charque como pano de fundo para motivar a Revolução Farroupilha (1835-1845)]. Em 11 de setembro de 2019, aos 183 anos da Proclamação da República Rio-Grandense, após um sonho com Miguel Arcanjo, decidi doar o acervo, ao invés de construir um museu em Gramado. “Questionado sobre a escolha do museu que receberá a coleção, Volnir é enfático: “o Museu Farrapo é a pedra fundamental da República Rio-Grandense para as futuras gerações.”  

Ao ter conhecimento da possível doação, a secretária de Estado da cultura, Beatriz Araujo, manteve contatos telefônicos com o empresário. O colecionador esperou até 11 de setembro – mesma data em que foi proclamada, em 1836, a República Rio-Grandense – para registrar em cartório e enviar o documento ratificando sua decisão. Beatriz e Francieli viajaram para conhecer o doador e o referido acervo, o que aconteceu em outubro. A dupla percorreu mais de quatro mil quilômetros para desembarcar em Natal.

Lá, foram recebidas por um gaúcho com pilcha completa, que as levou ao ambiente de sua residência, onde os 29 volumes que acondicionavam a coleção, totalizando 401 quilos, estavam enfileirados.

O colecionador Volnir Júnior dos Santos pilchado, como um autêntico gaúcho

Após a consolidação das tratativas, a secretária passou a envidar esforços para trasladar o acervo até Porto Alegre, uma vez que – antes de ser levado para Piratini – o mesmo deve passar por catalogação e ser adicionado ao patrimônio do Estado. Para isso, contou com a intermediação do deputado federal Ronaldo Santini, o qual viabilizou o transporte aéreo junto à Força Aérea Brasileira (FAB) e terrestre por meio do Exército Brasileiro, oportunizando que dois meses depois a coleção chegasse ao Rio Grande do Sul. 

Francieli lembra que o valor das peças e a nobreza no gesto do colecionador despertou muita emoção na equipe. A coleção é composta por itens de valor museológico arquivístico e bibliográfico incalculável. “São centenas de livros de grande qualidade técnica, alguns deles raros e artefatos que variam de balas de canhão, armamento de época e outras raridades, como as moedas com a cunhagem da República Rio-Grandense e o passaporte que dava acesso à república farrapa durante o período da Revolução Farroupilha”. Francieli vai além: “trata-se de relíquia cultural, patrimônio de todos os gaúchos. Uma doação altruísta que configura uma nova história para o Museu Farroupilha, agora assinada a próprio punho pelos Farrapos. É a parte da República Rio-Grandense que retorna a sua primeira Capital.”

O transporte do acervo para Piratini só será realizado após a conclusão das melhorias físicas no museu. A denominação da coleção já foi escolhida e presta homenagem ao colecionador Volnir: Coleção TcheVoni – perfil público do doador. A previsão de exibição pública das peças é setembro de 2020, ocasião que coincide com o retorno das obras pictóricas de grandes dimensões, pertencentes ao Museu, que estão sendo restauradas pelo curso de Conservação e Restauro de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) desde 2019 – a partir de Acordo de Cooperação Técnico-Científica firmado entre a Sedac e a universidade.

O museu

Fundado em 1953 pelo Estado do Rio Grande do Sul, o Museu Histórico Farroupilha é considerado um pilar fundamental para construção da identidade gaúcha.  Seu acervo é um dos principais narradores do episódio divisor de águas da história do Estado, a Guerra dos Farrapos, e a formação da República Rio-Grandense. Configura-se em uma matriz para pesquisas de valor histórico e científico e em equipamento cultural e turístico de Piratini.

Foto: Rafael Varela/ASCOM SEDAC