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Os viajantes do sul do Brasil

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Para descrevermos o passado histórico com maior fidelidade recorremos à pesquisa, esta deve ser séria e honesta. O pesquisador tem como dever elucidar e analisar as fontes com a devida clareza que cada tema merece.

Quando pesquiso temas regionais, quer sejam danças, indumentárias, religiosidade ou quaisquer outros ligados as origens dos povos formadores do estado sempre recorro à obra de Jean Baptiste Debret, o qual participou da Missão Artística Francesa no ano de 1817 ajudando a fundar na cidade do Rio de Janeiro a academia de Artes e Ofícios e posteriormente a Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou. Ao voltar à França em 1831 realizou a publicação do livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”; a obra retrata aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do século XIX, da qual foi extraído o texto a seguir, que de forma clara e precisa nos mostra como era um verdadeiro acampamento dos antigos tropeiros dos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

“Mais difícil ainda se faz o acampamento do viajante isolado no meio dos campos dos confins das províncias de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Nesses desertos ele é obrigado a acampar atrás das canastras e dos arreios de seus animais, amarra seus cachorros nos cantos da “fortaleza” e conserva durante toda a noite uma guarda exterior ao pé da fogueira, cujo clarão as onça teme.

Assim cercado de ameias (pequenos intervalos na parte superior das muralhas dos castelos e fortalezas que serviam para que os defensores pudessem melhor se defender dos atacantes) e com as armas carregada, esse comerciante nômade, protegido da chuva e da umidade do terreno por dois couros de boi, enrolado no seu poncho, esquece um momento das fadigas de uma viagem longa e não raro perigosa, enquanto os burros pastam em liberdade, a pequena distância. Mas de madrugada, carregados de novo, esses dóceis animais levam os tesouros e as barricadas do dono para a nova parada a noite.”

Este relato de Debret nos deixa claro o intenso comércio entre as províncias citadas, as dificuldades de transportar as mercadorias em pleno século XIX, a carência de mercadorias também era outra realidade. Ainda a rudez das viagens, a rusticidade dos arreios, a singeleza e a coragem dos viajantes que durante meses nas penosas intempéries cruzavam caminhos para eles desconhecidos. No lombo das mulas, burros, acompanhados dos seus cachorros, ora também por escravos negros, faziam dos seus ponchos suas moradas e das suas canastras seus acampamentos.