Canela,

19 de junho de 2024

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Assédio: os dois lados do processo judicial contra ex-pároco de Canela

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Jovem de 17 anos busca indenização moral e trabalhista por fatos que teriam acontecido durante sete meses

O padre Vanderlei Barcelos, ex-pároco da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, de Canela, foi acusado de assédio à uma jovem de 17 anos, que trabalhou na secretaria da igreja, de junho de 2021 à fevereiro de 2022. O processo veio a público após a divulgação de uma matéria por um veículo de comunicação da região do Vale dos Sinos, no final de setembro.

Segundo a mãe da jovem, o sacerdote olhava para a menina de um jeito diferente, a elogiava repetidamente e proferia frases que poderiam ser interpretadas com segundas intenções, como “quero que você me veja como um homem, não como padre”, “gostaria de ter 20 anos para namorar você”, entre outras. Até que um dia, o padre puxou a menor pelo braço, encostando no seio dela – fato descrito no boletim de ocorrência realizado pela jovem e pela mãe, na Delegacia de Polícia Civil de Canela.

A mãe relata que as investidas do sacerdote eram frequentes, mas instruía a filha a enfrentar o mesmo. Uma noite, a menina chegou do trabalho chorando, muito abalada emocionalmente, e dizia não aguentar mais a importunação do padre. Momento em que a mãe decide confrontar o pároco. No dia seguinte, ela vai até o acusado para o questionar, e ele responde dizendo: manda me prender, eu sou padre.

Ela relata ainda, que o pároco ameaçou ela e a filha, em momentos distintos, ao mostrar foto de uma arma e dizer que era só pegá-la na casa de seu irmão. A menina, atualmente, faz tratamento psiquiátrico e, conforme atestado médico, “a paciente apresenta sintomas de desatenção como sintomalogia persistente do quadro depressivo, por isso tem a dose da medicação ajustada hoje e ainda pode apresentar-se com crise de ansiedade”.

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Além da questão do assédio, mãe e filha trabalhavam na Paróquia de forma irregular. A mãe era governanta e não possuía carteira assinada, já a filha, teve sua carteira assinada com um contrato de experiência, seis meses após trabalhar informalmente na secretaria da igreja. A mãe conta que ambas foram demitidas após terem confrontado Barcelos pelo seu comportamento com a menina, que na época possuía 16 anos, em fevereiro deste ano.

Pelas questões trabalhistas empregadas na situação, mais dois processos correm na Justiça do Trabalho e um terceiro de indenização tramita no âmbito Cível. O advogado da acusação, Pedro Schuch, ressalta que quem assinou o contrato de experiência da menina foi a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, por isso, os processos trabalhistas são contra a entidade. Ele relata que foi tentado acordo trabalhista entre ele e a advogada da Paróquia, mas não concordaram com os termos propostos pela igreja.

Schuch questiona também, o procedimento realizado pela Delegacia de Canela, pois segundo ele, não ouviram a jovem e entenderam que o relato da mãe para a confecção do B.O, correspondia a um depoimento. “Um depoimento deve ser tomado perante um Delegado ou um investigador que o Delegado designa para ouvir os fatos, as partes e colher provas. Nada disso foi feito na Delegacia”, afirma o advogado da acusação. Ele diz que foi tentado um acordo para o caso do assédio, mas não obtiveram resposta do padre.

Em contrapartida, o advogado da defesa, Luiz Fernando Cunha, diz que houve uma investigação interna minuciosa da própria igreja católica, que apontou falta de provas. “Na análise preliminar do caso, tendo ouvido as partes envolvidas e algumas testemunhas apresentadas pelo padre, diante da recusa da parte supostamente afetada de apresentar mais elementos que ajudariam nesta etapa investigativa, a Ouvidoria Canônica não encontrou elementos sólidos que pudessem caracterizar a confirmação da acusação”. O pronunciamento da Diocese, de Novo Hamburgo, na íntegra, está disponível abaixo:

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Luiz Fernando conta que Barcelos, desde o registo do boletim de ocorrência, desempenhava normalmente suas funções na Paróquia, porém, para preservar o padre e com o advento da matéria citada no primeiro parágrafo, houve a decisão de afastá-lo temporariamente, para poupá-lo de uma exposição desnecessária. Ele permanece em suas funções internas, plenamente, tendo em vista que a própria igreja fez sua investigação particular e o resultado foi favorável ao padre.

“Nós estamos tranquilos e confiantes na defesa. O padre, embora esteja nesse momento, fragilizado, pretende vir a público após ter a sentença desse processo. O interesse dele é continuar com a mesma credibilidade, o mesmo prestígio que ele sempre teve aqui”, declara o advogado da defesa.

A mãe e a jovem preferiram não ser identificadas.