Canela,

24 de fevereiro de 2024

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Leo de Abreu

VIRE O MATE

Leo de Abreu

VIRE O MATE – A Bíblia do gaúcho

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Martin Fierro

“É a bíblia do gaúcho”. É uma expressão bem ousada mas não de toda perdida. Martin Fierro é um livro do ano de 1872, do argentino José Hernandez todo feito em versos e praticamente num dialeto gaucho, fugindo do espanhol como ele é. Ao ler suas 395 estrofes se torna inevitável a apropriação da narrativa para a identidade do povo daqui do sul.

Ele conta de um personagem de campo, uma conduta marcada pela retidão de valores que fora levado a guerra, tirado do seu rancho e depois se tornou um vagante por não lhe restar mais nada na vida. Com um violão, o personagem Fierro canta em payada sua história como se pintasse um quadro no imaginário de quem lhe ouve.

Sem dúvidas, ao se falar em tradição, bem como obras de Simões Lopes Neto, Paixão Cortez, Aparicio Silva Rillo, estes escritos de Hernandez deveriam ser estudados e trazidos sempre que possível a reflexão do seu tempo.

Um pouco do começo da obra traduzida de “El Gaucho Martin Fierro” :

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Aqui me ponho a cantar
ao compasso da guitarra,
que o homem que angustia
uma dor extraordinária,
como a ave solitária
só com o cantar se consola.
 
Peço aos santos do céu
que ajudem meu pensamento;
E peço-lhes neste momento
que vou contar minha história
me refresquem a memória
e aclarem meu entendimento.
 
Venham  santos milagrosos,
venham todos em minha ajuda,
que a língua se me enrola,
e me turba a vista;
peço ao meu deus que me assista
em uma ocasião tão difícil.
 
Já vi muitos cantores
com famas bem conseguidas
e que depois de adquiridas
não as querem sustentar;
parece que sem começar
se cansaram em paridas.
 
Mas onde outro crioulo passa
Martim Ferro ha de passar;
nada o faz recuar,
nem os fantasmas o espantam,
e desde que todos cantam,
eu também quero cantar.
 
Cantando haverei de morrer,
cantando me hão de enterrar,
e cantando hei de chegar
ao o pé do Pai Eterno;
donde do ventre de minha mãe
vim a este mundo a cantar.
 
Que não se trave minha lingua
nem me falte a palavra;
o cantar minha glória lavra,
e me pondo a cantar,
cantando me hão de encontrar
mesmo que a terra se abra.
 
Me sento sobre um garrão
a cantar um argumento;
como se soprara  o vento
faço tiritar os pastos
com ouro, copas e bastos
joga ali meu pensamento.
 
Eu não sou cantor letrado
mas se me ponho a cantar,
não tenho quando acabar
e me envelheço cantando;
as coplas me vão brotando
como água de manancial.
 
Com a guitarra na mão
nem as moscas se me arrimam;
ninguém me põe o pé encima,
e quando o peito se entona,
faço gemer a prima
e a chorar a bordona.

Eu sou touro em meu rodeio
e tourasso em rodeio alheio;
sempre me tive por bom,
e sou duro com os duros,
e nenhum, em um apuro
me viu andar vacilando.
 
E no perigo, que cristo!
o coração se me engrandece,
e disto ninguém se assombre,
o que se tem por homem
onde queira faz  pata grande.
 
Sou gaúcho e entenda-o
como minha língua lhe explica;
para mim a terra é pequena
e pudera ser maior
nem a víbora me pica
nem queima minha fronte o sol. (…)

Ilustração Martin-Fierro de Carlos Alonso