Canela,

18 de junho de 2024

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Chico

360 GRAUS

Francisco Rocha

Vídeo: Imperadores, anjos e demônios, Silvas e Santos e a saga da Operação Cáritas

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Confira a coluna 360 Graus, desta semana, em vídeo:

Alguns leitores da Folha ficaram chocados com o vídeo de Ângelo Sanches saindo algemado do Fórum de Canela após uma audiência e entrando na cachorreira da viatura da Susepe.

De fato, para quem conheceu Sanchez no auge de sua passagem pela Secretaria de Turismo, a imagem foi forte. Mas, é para ser mesmo!

Ângelo, como você sabe, significa anjo, e Cáritas, do latim, quer dizer caridade. Se por um lado a operação policial não tem sido caridosa com criminosos, colocando atrás das grades quem se locupleta com o dinheiro público, por outro, ao que tudo indica, estamos tratando de anjos e santos caídos.

O vídeo mostra um alto integrante da cúpula municipal, preso, sendo julgado. Mas, porque este é o retrato da política canelense neste momento?

Para entender o motivo que levou essas pessoas de anjos a demônios é preciso voltar no tempo, mais precisamente ao ano de 2016, quando, em dezembro, Constantino anunciou seu primeiro secretariado.

Vilmar Santos, que sempre teve pouco carisma e não gozava da simpatia da comunidade, assumiu Governo e Assistência Social. Esse já era figura conhecida na política, inclusive tendo sido eleito vereador, em algum momento.

Após, Mana, assumiu a Assistência Social.

Luiz Cláudio da Silva, o Ratinho, iria para Obras. Tido como um homem simples, gozava da simpatia da comunidade e chegou a ser cogitado para vice na eleição de 2020.

Angelo Sanches assumiria o Turismo, uma das principais pastas da cidade. Desconhecido da maioria dos canelenses, era visto com desconfiança pelo trade turístico.

Mas Sanches tinha algumas qualidades de fazer inveja a qualquer político de carreira. Primeiro, ele sabia ouvir, podia ficar um bom tempo apenas escutando você relatar um problema. Depois, sempre se mostrava solícito: “pode deixar comigo, meu irmão, vou fazer o possível para resolver o teu problema”.

E, sempre, te retornava, com o pulo do gato, uma solução. Podia não ser a solução que você esperava, mas vinha uma solução.

Em 2017, Sanches fez seu gol de placa, chamou Elias da Rosa para a 30ª edição do Sonho de Natal, resgatando elementos de todas as edições, ouvindo a comunidade e realizando um grande evento. Até o jingle “uma estrela foi no céu surgindo”, ele trouxe de volta.

Arrojado, ganhou a confiança do trade e figurou entre os maiores empresários da região, sempre como um parceiro, uma pessoa de soluções.

Ângelo se colocou na tríade de confiança de Constantino (que não tem nome de imperador à toa). Ele, Vilmar e Ratinho eram as pessoas que o prefeito escutava e o poder do trio só fazia aumentar. E com poder, vem grandes responsabilidades, mas também oportunidades. É fácil se deixar levar.

São vários os depoimentos de pessoas que Ângelo pedia favores ou parcerias e cobrava: “você vai dizer não para mim, meu irmão? Depois de tudo que lhe ajudei”?

Aos poucos o castelo de cartaz começou a desabar. Na primeira estilingada do delegado Vladimir (que também não tem nome de imperador à toa) e de sua equipe, foram presos Vilmar, Ratinho e Alberi Dias, este último com histórico de problemas na família com parcelamento e venda irregular de terrenos.

Vale o registro que, naquele fatídico 8 de novembro de 2020, também havia um pedido de prisão de Sanches, na época não autorizado pelo Judiciário.

Aliás, um parênteses, Mana também já havia sido afastada da secretaria de Assistência e Habitação por suspeita de irregularidades com parcelamento irregular do solo. Paulo Tomasini também havia sido afastado da secretaria de Meio Ambiente (depois foi inocentado, é importante registrar).

Assim, a equipe de Constantino foi sendo desmanchada, cada qual com sua culpa e cada qual com sua parcela de (i) responsabilidade.

A Operação Cáritas revelou uma série de irregularidades e suspeitas de corrupção, uma rede entre empresários e agentes políticos que servia apenas para tirar vantagens do poder e do dinheiro público.

Veio a prisão de Jackson Muller, doutor em biologia, aposta de uma condução técnica ao Meio Ambiente, que resultaram em estações de tratamento que são elefantes brancos em Canela.

A prisão de Angelo, já fora da Prefeitura, foi a cereja do bolo. Dentro os acautelados, é o que mais tempo permaneceu (e permanece) preso.

Vejam que meu relato, já estendido, é pobre de detalhes, um resumo corrido da operação que iniciou em abril de 2020, com o desvio de materiais do HCC e revelou um esquema gigantesco na pobre, rica, promissora cidade de Canela.

Sabemos como a Cáritas começou, mas jogo dois cafezinhos que nem mesmo a dedicada equipe da Delegacia de Polícia de Canela imagina quando e como ela vai terminar.

Faço este relato para dizer aos leitores que, quando escuto alguém com pena, achando que o que prejudica Canela é a Operação Cáritas, ou que estão pegando pesado com este ou aquele investigado, eu digo: tenho pena é de quem trabalha honestamente, tenho pena do dinheiro dos meus impostos.

Quem atrasa Canela é quem bota a mão em dinheiro público, quando deveria estar trabalhando pela comunidade (ah, e quem não faz nada para impedir, também tem).

Por fim, um salve à Polícia Civil e à 1ª Vara Judicial de Canela, pela coragem e determinação. Não é fácil manter uma operação com a Cáritas. Hoje o remédio está sendo amargo, mas a história vai mostrar que, entre anjos e demônios, precisávamos deste expurgo para ir à frente.