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No ritmo da natureza

Carlos José Frozi e a esposa Sida Gomes na Feira de Orgânicos que acontece todos os sábados, pela manhã, no Centro de Feiras de Canela
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A família Frozi planta mais de 240 variedades de produtos e usa técnicas naturais de plantio que dispensam o uso de agrotóxicos

Por Nicole Cavallin
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Quando pensamos em agricultura ou em produção de alimentos, o que nos vem à mente são aquelas plantações em escala com fileiras e fileiras de alimentos da mesma espécie, uma atrás da outra. Geralmente produzidos para fins comerciais, os alimentos têm seu modo de produção acelerado, por meio de pesticidas e derivados, também conhecidos como agrotóxicos, para garantir o mínimo de perda.

Pelo caminho inverso ao processo, o agricultor e biólogo Carlos José Frozi, 61 anos, trabalha com uma alternativa para quem deseja manter a mesa longe da industrialização alimentícia. Em meio ao canto dos pássaros, na zona rural de Canela, ele mantém plantações dentro da perspectiva da agroecologia, baseada na sustentabilidade dos ambientes, em uma prática que pouco interfere no andamento da natureza.

Junto à própria casa, ele desenvolveu as plantações conforme um ecossistema, ou seja, com flores, frutos, hortaliças e inúmeros tipos de vegetais, plantados de forma não linear, com a mistura de espécies e sem agrotóxicos, claro. Segundo Frozi, além de facilitar a evolução das plantas, a sistemática desenvolvida pela visão agroecológica faz com que não seja necessário o uso de produtos tóxicos danosos à saúde humana e ao solo, pois as lavouras são desenvolvidas a partir de recursos naturais, como o próprio planejamento das hortas e a rotatividade de culturas.

Dentro do ecossistema criado pelo agricultor, a roseira, por exemplo, é plantada porque é um atrativo para as formigas cortadeiras e por isto serve como indicador, pois é uma das primeiras culturas que ela vai atacar. Os gerânios, por sua vez, são plantados perto do pé de ameixa, pois impedem que a lagarta atinja a raiz da ameixeira fazendo com que ela morra. “Plantas aromáticas como o manjericão e a arruda também são plantadas de forma estratégica, pois o vento leva o aroma delas, e isso faz com que as pragas sejam espantadas”.

O técnico em agricultura Leonardo Schneider lembra que os agrotóxicos são prejudiciais para a saúde, assim como a maioria dos medicamentos, conservantes, entre outros, uma vez que são substâncias estranhas para corpo e podem trazer prejuízos, se consumidos em grandes quantidades. “A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou alguns limites de consumo para cada tipo de elemento químico, mas o problema atual é saber se os prazos entre a aplicação e a colheita do alimento estão realmentesendo respeitados”, afirma Schneider.

Longe dos produtos agroquímicos, um dos métodos naturais utilizados por Frozi para acabar com os fungos é fazer o chá de uma planta chamada cavalinha e borrifar nos vegetais. Outra tática utilizada para que as folhas fiquem com uma aparência mais bonita e sem furinhos é a de um repelente orgânico, feito com cinzas de fogão à lenha diluídas em água e peneiradas com leite sobre as plantas. No entanto, na opinião de Frozi, não há necessidade disto, pois é só uma questão estética que em nada altera o sabor do alimento. Do contrário, a planta está saudável e em ótimo estado para o consumo.

Todo o conhecimento do agricultor também foi compartilhado nas salas de aula. Por 20 anos Frozi deu aulas de Biologia em universidades, até perceber que o discurso que fazia na academia estava longe da realidade de cada aluno. Por isso, trocou o barulho da Grande Porto Alegre pelo ronco dos bugios na Serra. Então, realizou um estudo dos seres, para que cada espécie desejada fosse plantada em um lugar específico, a fim de que o próprio ecossistema servisse como inibidor de pragas. “Na verdade eu aprendi muito sobre botânica com a minha bisavó, que era semiletrada. Ela já tinha jardins misturados com flores, temperos e hortaliças. Tudo era misturado. Eu sempre digo que eu aprendi mais com sábios não letrados do que com doutores ignorantes”.

Em Canela, o trabalho de venda de produtos orgânicos já contabiliza três anos, mas a família de Frozi vende a maioria das coisas que produz na feira de Porto Alegre, há cerca de 30 anos, orgulhando-se dos alimentos sem veneno. O agricultor conta que não sabe o nome dos produtos químicos que são frequentemente utilizados por produtores e, por conta disso, quando resolveu voltar a plantar, apenas resgatou a maneira tradicional da família de cultivar.

São mais de 240 variedades de produtos, sem qualquer adição de agrotóxicos. Há alimentos como a laranja, o brócolis e a arruda, que só em Porto Alegre vende de 15 a 20 galhos por semana. Até os menos convencionais como o damasco, o figo da índia, o café, a castanha portuguesa, o trigo mourisco e o mamão, que por conta do inverno pouco rigoroso, deu o fruto pela primeira vez em 20 anos, são vendidos.

O valor dos orgânicos

Cada alimento sem agrotóxicos tem seu valor e, em geral, os produtos orgânicos chegam a ser 30% mais caros do que os convencionais, o que acaba dificultando que todas as pessoas tenham acesso a eles. Para o técnico em agricultura Leonardo Schneider, um dos fatores que contribui para o aumento no custo destes produtos é o baixo incentivo governamental aplicado nas produções familiares. “Estas propriedades são as que possuem as maiores possibilidades de praticar a agricultura orgânica, pois cultivam menores áreas e possuem disponibilidade de mão de obra. Além disso, alguns ainda dominam as técnicas mais antigas de cultivo, que não eram baseadas no uso de agroquímicos”.

Para Frozi, a questão é ainda mais ampla e ele justifica dizendo que também existe um custo ambiental na produção destes alimentos e que isso acaba sendo refletido nas bancas. “Todo mundo quer a natureza preservada, mas quando um esquilo come quase a metade da produção, por exemplo, porque só o agricultor tem que bancar a alimentação desse esquilo? Tu queres a natureza preservada lá, mas tu não queres mexer no teu bolso. Só que alguém precisa fazer isso”.

Na propriedade dos Frozi, quem faz todo o trabalho de plantação, colheita e comercialização é ele e a esposa, Sidonea Gomes, ou Sida, como é chamada. Ele explica que faz apenas alguns manejos de manutenção nas plantações duas vezes ao ano e que depois de aprender a lidar com a natureza, ela caminha sozinha. “Ela é autossustentável. Precisou do homem para o ecossistema se tornar sustentável? Não, né. Ele andou sozinho. Se tu me perguntares qual é o melhor adubo, não existe. Para mim, a cultura que no ano eu mais me dedico, mais olho, é a que mais desenvolve. Mas, eu tenho que olhar ela todos os dias. Isso é amor!”, define. Por isso, Sida e Frozi dão a principal receita do sucesso de suas lavouras: plantar os alimentos respeitando a natureza e cultivando cada um deles com amor.

 

Fotos: Rafaela Amaral