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Adoção, um ato de amor de mãe

Newborn baby feet in the mother hands
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A maternidade, na maioria da vezes, é associada a gestação, pois por ser a gestação exclusiva da mulher, é uma das fases da vida que mais se identifica com o fato de ser mãe.

Mas, nesta semana que antecede o Dia das Mães, nossa reportagem um lado diferente da maternidade, a opção por ser mãe, mãe de sentimento.

Nossa reportagem acompanhou o trabalho do Grupo de Apoio à Adoção Construindo o Amor, que desenvolve o projeto Apadrinhamento Afetivo, junto ao abrigo Casa Lar de Canela.

Adoção é um amor que foi escolhido

A técnica de enfermagem Fernanda Corrêa Boeira Nunes é um destes exemplos de doação. Aos 45 anos, dupla jornada de trabalho, uma filha biológica de 23 anos que estuda no exterior, ela e seu esposo optaram pela adoção, estão na esperá há dois anos.

Fernanda, ao centro, com sua mãe e sua filha
Fernanda, ao centro, com sua mãe e sua filha

Há cerca de dois meses, receberam o convite do GAAC para apadrinhar um menino do abrigo Casa Lar de Canela. Eles foram apresentados a E., um menino de 16 anos, portador de necessidades especiais.

Desde de que entraram no programa, Fernanda e seu esposo mudaram a sua rotina. “Antes, não tínhamos tempo para nada, agora vimos que temos tempo, sim, e usamos ele da menor maneira possível. Hoje, passo o maior tempo que posso com E., inclusive vou dedicar minhas férias a ficar com ele”, explica Fernanda.

Ao se casar novamente, ele e o marido se depararam com a realidade de não poder mais ter filhos biológicos e não tiveram dúvidas, partiram para o pedido de adoção. “Chegamos a conclusão de que não seria necessária a gestação, a adoção supriria todas as necessidades de aumentar a família”.

O apadrinhamento afetivo foi uma forma de doar seu tempo a quem precisa e ingressar de vez no mundo da adoção. A sua família como um todo, aceitou muito bem o afilhado E.. Hoje, suas prioridades são diferentes, bem como mudaram suas concepções sobre ser mãe.

“Tudo se resume a sentimento, não há como definir em palavras”, finaliza.

Outro fato interessante é que ao preencher a ficha para entrar na fila de adoção, o único pedido feito por Fernanda e seu marido é de que a criança a ser adotada seja portadora de Síndrome de Down.

Fotos: Reprodução

Festa de Natal na Casa Lar, com membros do projeto de apadrinhamento afetivo e da Juíza da Vara de Família, Simone Chalela
Festa de Natal na Casa Lar, com membros do projeto de apadrinhamento afetivo e da Juíza da Vara de Família, Simone Chalela

“Só temos noção do bem que isso traz depois que fizemos”

A frase que dá título à matéria é de Gabriela Weirich da Cunha, 37 anos. Ela, juntamente com o marido Pedro Beron da Cunha, participa do programa de apadrinhamento afetivo do GAACA.

A experiência do casal com as crianças e adolescente da Casa Lar iniciou com aulas de vôlei aos finais de semana, em conjunto com a Brigada Militar.

gabriela weirich da cunhaApós, veio a entrada no projeto. Segundo Gabriela, ela sempre quis adotar uma criança, o marido queria filho biológico. Decidiram fazer os dois.

O casal está na fila de adoção e é padrinho do adolescente C., de 14 anos. Como já conheciam a maioria dos jovens abrigados, a escolha de qual seria o padrinho veio da coordenadora do projeto e tem sido uma experiência muito gratificante, diz Gabriela.

“Agora, vejo como isso é importante para ele e é uma tristeza na hora de deixá-lo novamente no abrigo”, conta.

Atividades como orientação escolar, atividades de lazer e até mesmo comportamentais passou a fazer parte da vida do casal, que mudou a sua rotina em função do afilhado afetivo. “Há algumas semanas, pediu que nos ligassem para que nós levássemos ele no inter séries escolar. Estava nervoso, pois íamos assistir, de certa forma orgulhoso, o que nos trouxe orgulho também”.

Essas atividades e orientações tem surtido efeito em outros campos da vida do afilhado, como no comportamento social, fazendo com que fique mais calmo e respeitoso, uma conquista, segundo a madrinha. “Propiciar momentos de família, como estar em frente à uma lareira, é importante, a casa lar é fria no aquecimento, mas é uma casa fria de afeto”.

Toda esta atividade faz com que Gabriela e seu marido se sintam muito bem. “Só temos noção do bem que isso traz depois que fizemos”, explica. “Todo mundo pode ajudar e existem muitas maneiras de fazer isso”, finaliza.

Várias formas de apadrinhamento

Gabriela elogia o trabalho feito pelo GAACA, na pessoa da coordenadora Tatiane Cavallin, e da Justiça, comandada pela juíza Simone Chalela, o que tem possibilitado avanços com as crianças e adolescentes abrigados, mas, segundo ela, falta ainda maior participação da comunidade.

“Temos várias necessidades, como material escolar, roupas, médicos, remédios e acompanhamento profissional de psicólogos. Esse é um problema que deve ser enfrentado por toda a sociedade e cada um precisa fazer a sua parte para criarmos um mundo melhor”.

No caso do adolescente C., Gabriela e Beron já pensam nos seus 18 anos, quando deixará o abrigo e entrará no mercado de trabalho e em como poderão ajudar.

Existe ainda o apadrinhamento financeiro, para quem não tem tempo ou não pode se envolver e diversos casos pontuais que necessitam de apoio. “As pessoas não tem noção do bem que podem trazer com simples gestos”, diz Gabriela.

Carinho e doação para quem perdeu os laços familiares

Crianças em abrigos experimentam convivência familiar por meio do apadrinhamento afetivo

O apadrinhamento afetivo é diferente da ação. Nele, os padrinhos não têm responsabilidades legais com os afilhados nem compromissos financeiros. O objetivo é a simples troca de carinho. Os interessados visitam as instituições com frequência, dão conselhos, ajudam nas tarefas escolares das crianças, levam para passear e até para passar um tempo em suas casas.

É suprir a necessidade de mãe e pai para quem perdeu este convívio. Além disso, torna-se uma experiência e um caminho mais curto para quem pretende a adoção.

Neste contexto, o Grupo de Apoio à Adoção Construindo o Amor desenvolve o projeto Apadrinhamento Afetivo, junto ao abrigo Casa Lar de Canela. O projeto conta com o apoio da Justiça, através da Vara de Família de Canela, do Ministério Público e da Prefeitura.

Em Canela, 20 casais participam do projeto. Eles se reúnem semanalmente, trocam experiências, fazem atividades conjuntas e contam com o apoio de profissionais da área.

Nossa reportagem acompanhou a reunião desta semana e falou com alguns casais. Para eles, não há nada melhor que ver a felicidade dos afilhados quanto estão em sua companhia. O momento triste é quando as crianças tem que voltar para o abrigo, mas tudo se renova ao ver o sorriso deles quando chegam na Casa Lar.

Genevieve Zacoutegy Martins Casagrande é uma das mulheres que participam do programa, junto com seu esposo. Hoje eles têm dois filhos adotados, uma menina e um menino.

Ela conta que começou a participar do grupo a partir de seu segundo encontro e foi mudando sua maneira de pensar. Inicialmente, queria adotar crianças pequenas, após, se deu conta que uma criança maior é muito bem-vinda.

Aos 44 anos de idade, é mãe há quatro meses, pois a escolha de crianças com mais de 08 anos e ainda irmão, os dois, agilizou o processo de adoção. Ela conta que essa experiência mudou a sua vida e que hoje quem não sabe que as crianças são filhos adotivos, chegam a falar que elas são parecidas com o casal.

“As pessoas deveriam abrir mais o coração para a adoção. Nós cumprimos todos os requisitos legais, aguardamos e hoje temos os filhos que eram para ser nossos. Estamos todos muito felizes”.

O GAAC é composto por casais que estão na fila de adoção e outros que buscam apenas o apadrinhamento afetivo. O apadrinhamento é um exercício mútuo de afeto e de comprometimento social e humano, por isso não existe a ideia de caridade, mas de troca, onde ambos, padrinho e afilhado, dão e recebem em igual medida o amor e a confiança recíprocos.

Isso contribui de maneira decisiva para o futuro destas crianças e dá uma oportunidade de crescimento e convivência familiar para quem perdeu estes laços e, muitas vezes, não tem mais a esperança de resgatar.

O programa está em fase de finalização do Termo de Cooperação, entre os órgãos envolvidos. A partir disso, as atividades podem ser ampliadas.

Para saber mais sobre o programa, os contatos são 99665-1703, com Tatiane Cavallin, 3282-6152, na Casa Lar, com Carina Pereira, ou 3282-1009, no Fórum de Canela.

Alguns casais integrantes do projeto de apadrinhamento afetivo. Foto: Francisco Rocha
Alguns casais integrantes do projeto de apadrinhamento afetivo. Foto: Francisco Rocha