Início De Prosa e Verso De Prosa e Verso por Fabiano Hanel: O arroz para o imperador

De Prosa e Verso por Fabiano Hanel: O arroz para o imperador

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Nesta volteada escrevo aos nossos leitores deste semanário um trecho extraído da magnífica obra de Alcy Cheuiche, “Agropecuária – Vocação Rio Grandense de todos os tempos” o texto:

Várzea do Barro Vermelho, Cachoeira do Sul, inicio de agosto de 1865

Emília arregalou os olhos e custou a responder:

– Minha casa? O imperador aqui na minha casa? O oficial, molhado e tranqüilo, confirmou com um aceno de cabeça.

– Estamos vindo de Cachoeira. A carruagem de Dom Pedro II atolou na saída do passo do Jacuí. Precisamos abrigá-lo por esta noite. Sua casa é a única nestes arredores.

Emília mais calma, explicou que Desidério Lemes, seu marido, tinha ido dar um ajutório para empedrar outro atoladouro, já mais perto de Caçapava, em terras do seu Ricardinho.

– É isso mesmo, confirmou o oficial, amanhã está previsto o pouso na propriedade do senhor José Ricardo Magalhães. Mas precisamos da sua por esta noite, minha senhora, Estamos dispostos a…

– Não. Nada de pagamento. É que…Tudo aqui é tão simples, tão pobre. Mas vou dar a nosso quarto de casal para ele dormir. É o único piso com tábuas. Já vou tirar os meninos da cama e ajeito tudo, meu senhor. Mas não foi preciso. Depois de apear do cavalo diante da casa, sempre com chuva caindo forte, Dom Pedro insistiu, com palavras educadas, em armar sua cama de campanha na cozinha.

O Marquês de Caxias, seu Ajudante de Campo, General encarregado da segurança do Imperador, dormia no chão, ali por perto. Os demais foram se espalhando pelas demais peças, pelo chão, pelo galpão e debaixo da ramada.

Emília só tinha arroz com charque para oferecer. Dom Pedro, sem fome, aceitou provar a iguaria, como ele disse, e logo arregalou os olhos, como Emília fizera duas horas atrás:

– Uma delícia, senhora Lemes. Nunca provei um arroz como este. O charque é delicioso também. Mas este arroz… De onde vem, minha senhora?

– Daqui mesmo, da várzea do Jacuí. Mas não é meu marido quem planta. Desidério é tropeiro de cavalos. Quem planta é um colono de Cachoeira.

– Pena que lá não me serviram deste…

– Arroz de Carreteiro, emendou o Marquês de Caxias, grande conhecedor do Rio Grande do Sul. Depois do churrasco, é o prato mais comum por estas bandas, Majestade.

– Pode ser. Mas este arroz é incomum. Peço-lhe, Marquês, providenciar um relatório sobre o colono que o plantou e outros que estejam cultivando arroz por aqui. Quero saber como dar-lhes apoio para que expandam a cultura. Arroz precisa de água e isso é o que não falta estas bandas. Todos riram, entendendo a tirada humorística do rei.

Na manhã seguinte, depois do café com leite e pão de milho, também elogiados por Dom Pedro, o Imperador pediu para ver os meninos Osório e Honório Lemes, um com dois anos e o outro com dez de idade. Encantou-se com o nome Osório, inspirado no General escolhido para acompanhar as tropas brasileiras contra o Paraguai. Depois, pediu para pegar Honório no colo e disse-lhe umas palavras como se pudesse entender:

– Teu nome vem da palavra honra. E essa qualidade é o que não falta por aqui. E devolvendo o menino aos braços de Emília: – A família Leme, ou Lemes, é uma das mais antigas do Brasil. Desde o bandeirante Paes Leme, o Caçador de Esmeraldas que, seguramente, é ancestral de vosso marido, esse sangue vem pulsando nas veias de homens e mulheres valentes. Muito obrigado pela hospitalidade, minha senhora, e que Deus abençoe esta casa e sua família.

Honório Lemes o foi conhecido na Revolução Federalista de 1893 e na Revolução de 1923 onde ganhou o codinome de Leão do Caverá ou Tropeiro da Liberdade devido a profissão que herdou do pai.

Don Pedro II em trajes de campanha quando da Guerra do Paraguai, em passagem pelo Rio Grande do Sul.

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Amigos, chegamos ao arremate da trança, desejo, saúde, luz e paz a todos!

Mil Gracias!