O recurso existe, mas a obra parece miragem. Neste compasso, canteiro de obras talvez em 2027. Porque as coisas são tão custosas em Canela?
Entrou no protocolo da Câmara de Vereadores de Canela no dia 16 de julho, às 9h04, o Projeto de Lei nº 054/2025. A proposta altera a Lei Municipal nº 4.860/2024, que havia vinculado o recurso de R$ 9 milhões ao bairro Celulose para construção do novo Ginásio Municipal. Agora, o novo texto quer retirar essa amarra legal, abrindo caminho para que a obra seja feita em outro lugar — mais precisamente no bairro Canelinha, conforme anunciado ainda em abril pelo prefeito Gilberto Cezar, durante o evento de 100 dias de governo.
O curioso é que, embora o projeto tenha dado entrada há semanas, ele ainda não havia sido comentado publicamente até agora. Pois bem, habemus uma boa pauta.
Vamos recapitular:
O recurso de R$ 9 milhões veio da assinatura de um aditivo ao contrato com a CORSAN/AEGEA. Foi aprovado em lei pela Câmara e comemorado como grande conquista — afinal, Canela jamais havia recebido verba dessa magnitude para o esporte. A área da Celulose foi definida por lei como local da futura obra. Mas aí vieram as eleições, trocou o governo, e a nova gestão reavaliou a viabilidade da área. O resultado? Mudança de planos e um novo endereço para o sonhado ginásio.
A coluna apurou que:
- O governo anterior chegou a trabalhar num projeto para a construção no bairro Celulose, mas ele nunca foi finalizado nem licitado.
- O governo atual ainda não tem projeto algum. Ou seja, antes da obra, será necessário licitar uma empresa para elaborar o projeto do novo ginásio no bairro Canelinha.
- Esse projeto (que poderia ter sido herdado e adaptado) terá de ser pago com o próprio recurso de R$ 9 milhões — o que, claro, reduz o valor disponível para a obra em si.
- O projeto de lei que tramita na Câmara também não menciona os rendimentos financeiros acumulados sobre esse valor, que — estima-se — já devem somar algo próximo a R$ 1 milhão.
A notícia de que o tema voltou a andar é, sim, um alento para o esporte de Canela. Mas, convenhamos, com o mais difícil já conquistado — o dinheiro — o ritmo é quase o de uma marcha fúnebre. Já estamos em agosto, com menos de cinco meses para o fim do ano. E o que temos? Um projeto de lei em tramitação e nenhuma licitação aberta. Nem mesmo para contratar quem vá desenhar o projeto da obra.
Depois disso, virá a licitação da empresa que elaborará o projeto. Depois, o projeto precisa ser entregue. Só então a obra poderá ser licitada. Você piscou? Pois bem, talvez o canteiro de obras não saia do papel nem mesmo em 2026.
Enquanto isso, o Ginásio Carlinhos da Vila — com sua estrutura precária e visivelmente decadente — deve seguir sediando as finais do futsal e do vôlei de 2025, 2026… e sabe-se lá até quando.
Sim, eu sei que são apenas sete meses de governo. Sim, eu sei que há muitas outras prioridades em Canela. Mas também sei que há municípios com os mesmos problemas (ou até mais sérios), com menos orçamento, que fazem as coisas andarem.
Quer um exemplo? Entre no Portal de Compras Públicas e veja com seus próprios olhos. Recentemente, o município de Serraria, na Paraíba, com pouco mais de 6 mil habitantes, homologou a licitação para construção de um ginásio poliesportivo por R$ 873 mil reais. Isso mesmo: menos de R$ 1 milhão por uma estrutura equivalente ao nosso Ginásio Carlinhos da Vila.

E é por isso que eu amo a internet, a informação tá lá, é só pesquisar.
Façamos um exercício rápido: com os R$ 9 milhões que Canela tem em caixa, quanto poderíamos construir? Vá lá, tem diferença de preço da Paraíba para cá, alguma adequação no projeto, ampliação e tal, mas de 900 mil para 9 milhões… Então, olhando os exemplos em nossa volta fica claro que o problema pode ser qualquer um, menos dinheiro.
A pergunta que não quer calar: por que, em plagas canellenses, tudo é tão custoso — de tempo e de recurso?
E antes que digam que eu não sei do que estou falando, é sempre bom lembrar que o tempo que tenho só de serviço público equivale ao que alguns têm de tempo de trabalho total. Capito?