Por mais de meio século, o Oásis Santa Ângela foi sinônimo de cuidado, acolhimento e dignidade para mulheres idosas em Canela. Fundado há 53 anos por uma congregação religiosa de origem europeia, o lar construiu sua história amparado na caridade, na doação e no trabalho direto das próprias irmãs. Agora, essa trajetória chega a um momento doloroso: o encerramento das atividades.
A decisão, segundo a irmã Sônia Maria Southier, responsável pela administração, não foi repentina. “É uma decisão muito dolorosa. Isso aqui é uma vida inteira de história, de missão, de cuidado com pessoas”, afirmou.
Um modelo que se tornou inviável
Durante décadas, o funcionamento do Oásis foi sustentado por recursos vindos da instituição mantenedora, o Instituto Filhas de Santa Maria da Providência, heranças de famílias ligadas à congregação e doações espontâneas. Esse modelo, no entanto, deixou de existir. A crise econômica reduziu drasticamente os repasses internacionais, ao mesmo tempo em que as exigências legais brasileiras se tornaram mais rígidas.
Hoje, a casa abriga 46 idosos, a maioria em alto grau de dependência. Manter essa estrutura exige uma equipe de aproximadamente 60 funcionários, incluindo cuidadores, técnicos de enfermagem e profissionais da saúde. O custo médio mensal por idoso ultrapassa R$ 5 mil — enquanto a contribuição das famílias, em muitos casos, não chega a R$ 1 mil.
“Não é falta de vontade, é matemática”, resume a irmã. O déficit acumulado da instituição gira em torno de R$ 2,4 milhões, o qual foi totalmente liquidado pelo IFSMP.

Apoio insuficiente
Apesar de convênios pontuais com os municípios de Canela e Gramado e do recebimento eventual de emendas parlamentares, os valores nunca foram suficientes para garantir sustentabilidade. “Uma emenda de cem mil reais não paga nem uma folha de pagamento”, relatou.
Segundo a administração, não há hoje qualquer repasse regular do Estado ou da União. Após o anúncio do fechamento, nenhuma autoridade procurou a instituição para discutir alternativas estruturais.
Um encerramento humano
As famílias foram comunicadas oficialmente e terão até 45 dias para realocar seus parentes. A congregação garante que todos os direitos trabalhistas dos funcionários serão respeitados, já com verbas aprovisionadas para este fim, e que psicólogos e assistentes sociais acompanham o processo.
“Nosso maior cuidado agora é com as pessoas. Não é fechar portas, é fechar com dignidade”, afirmou a irmã.

Ainda há esperança?
A instituição deixa claro: se surgisse um apoio fixo, estável e de longo prazo — cerca de R$ 70 mil mensais — o fechamento poderia ser revisto. Mas milagres tardios não resolvem. “Se aparecer daqui a dois meses, já não dá mais. Esse tipo de decisão precisa ser imediata e responsável”, disse.
Apesar do encerramento das atividades como casa de longa permanência, a irmã Sônia afirma que o Oásis Santa Ângela não está “à venda”. O terreno e o prédio seguem como patrimônio da congregação, e a comunidade religiosa deve permanecer no local: são 13 irmãs morando na propriedade, ao menos por enquanto. Para o futuro, a instituição trabalha com a possibilidade de alugar parte da estrutura para iniciativas ligadas à saúde e ao cuidado de idosos, como clínicas ou projetos de atendimento pós-hospitalar e longa permanência — desde que preservem o perfil social e humano da obra. “Nosso negócio não é com loja. Nosso negócio é com pessoas”, resume a irmã, deixando claro que, mesmo com o fim de um ciclo, a missão pode ganhar um novo formato.