Canela,

31 de janeiro de 2026

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OPINIÃO FORTI

Márcio Diehl Forti

Os Direitos e os Deveres

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Os últimos anos nos conduziram a um caminho sem volta. Em tempos de informação instantânea, inteligência artificial e popularização das redes sociais, somos bombardeados a todo instante por uma infinidade de conteúdos. Ao abrir o celular, já encontro mensagens sobre tudo o que ocorreu enquanto estive fora do mundo virtual. Ao acessar uma rede social, surgem debates acalorados sobre saúde, esporte, educação e qualquer outro assunto em voga.

Quando o tema envolve direitos, muitos adoram cobrar obrigações do poder público em todas as esferas: federal, estadual e municipal. Muitas vezes, a razão está do lado de quem cobra. Afinal, como não se indignar com vias esburacadas, falta de água, iluminação pública defeituosa, filas de espera para cirurgias ou ausência de vagas em escolas públicas? E com propriedade.

Mas é preciso fazer um exercício de consciência. Muita gente gosta de reivindicar seus direitos, mas esquece dos seus deveres. E quando falo em deveres, não me refiro apenas ao popular argumento: “Pago meus impostos, logo tenho direito a tudo que estou reclamando!”. Isso até pode ser verdade, mas será que estamos trilhando o caminho correto para alcançar esse direito?

Na área da saúde, por exemplo, é comum ouvir reclamações sobre demora no atendimento hospitalar, má vontade de funcionários e tantas outras questões. Mas será que as pessoas entendem que casos de baixa complexidade devem ser resolvidos prioritariamente em Unidades Básicas de Saúde? Será que compreendem que nem toda consulta resultará em um atestado de três a cinco dias para permanecer em casa, recuperando-se de algo que pode nem ter afetado tanto sua saúde? Os profissionais de saúde, em sua maioria, fazem o melhor possível, mas nem sempre dizem o que o paciente gostaria de ouvir. Muitas vezes, a grosseria vem do lado de fora do balcão. Ainda que eu entenda perfeitamente que famílias estejam em momentos de fragilidade emocional, pressionar agressivamente o agente de saúde não é a forma de resolver os problemas.

Quando falo em deveres, será que a população entende para que serve o direito ao voto? Não seria dever do cidadão escolher seu candidato pela proposta apresentada, e não pelo cargo que ele possa oferecer a um parente ou conhecido? Além disso, é preciso compreender que um vereador não pode prometer asfalto para a sua rua ou vaga em creche para o seu filho.

Os governantes têm o dever de oferecer políticas públicas de educação, saneamento e até de lazer. Mas não são obrigados a organizar campeonatos apenas porque determinado grupo de futebol deseja. Considero importante que essas competições existam e torço para que, em Canela, por exemplo, aconteçam cada vez mais, com melhor estrutura e profissionalismo. No entanto, entre prioridades, prefiro que se dê sempre atenção às categorias de base e aos jovens, que realmente precisam disso para sua formação.

Os deveres de um cidadão vão desde a correta separação do lixo até o respeito ao meio ambiente, passando por repreender o “amiguinho” que picha espaços públicos e combater a depredação de praças e quadras. Adoramos reclamar dos buracos nas vias públicas, mas muitas vezes deixamos as calçadas em frente às nossas casas abandonadas, sem manutenção, e até sem números visíveis para facilitar a entrega de correspondências e auxiliar os serviços essenciais na identificação de problemas.

Hoje nem vou entrar em questões morais como downloads ilegais, “gatonets”, camisas piratas de clubes ou o famoso jeitinho brasileiro de furar filas. A realidade é clara: somos ótimos em reclamar (na maioria das vezes com razão), mas péssimos em exercer nossa cidadania em sua plenitude. Falta maturidade, falta senso coletivo e, às vezes, falta simplesmente noção.