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2 de fevereiro de 2026

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OPINIÃO FORTI

Márcio Diehl Forti

A “Lojinha” e o Ponto A

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Os anos noventa foram uma época incrível para começar a vida adulta. A transição do analógico para o digital estava a pleno vapor. Os jovens da época participaram de um processo um pouco mais lento do que o atual, é verdade, mas que trazia uma infinidade de novidades e fazia a alegria da juventude — e, consequentemente, dos adultos.

O surgimento do celular modificou a forma de um jovem sair à noite, por exemplo. Agora os pais podiam ligar e encontrar os filhos. De repente surgiu o SMS: imagina poder trocar mensagens instantâneas! O divertido era que, como geralmente não tínhamos crédito, restava ligar a cobrar para casa ou dar um “bipe” no celular do amigo mais abastado, cujo pai nunca deixava faltar crédito. Ao mesmo tempo, a internet discada começava a aparecer, e o ICQ movimentava os quartos dos jovens que tinham computador, prontos para disparar mensagens e contar as novidades no domingo à noite (quando o pulso era único).

A vida na região era animada porque tínhamos nossos “points”, que geralmente não eram os lugares da moda. Cada turma frequentava ambientes que reuniam comércio, amizade e companheirismo. Por alguns anos, meu contraturno do segundo grau foi na Esporte e Cia., uma pequena loja de artigos esportivos ao lado da Padaria Gisele e do Bar dos Metralhas. Ali se reunia uma turma que amava jogar futebol e adorava fazer festa. Apesar de pequena, a loja era muito conceituada, frequentada por diversos boleiros profissionais que vinham fazer a pré-temporada na região. Fotos dos Jogadores do Inter e do Grêmio ilustravam os balcões da “lojinha”, como carinhosamente a chamávamos.

Do lado de dentro, os irmãos Magnus — Fernando e Fábio — tocavam a empresa com o auxílio do Duda, o irmão mais novo, amigo da galera que passava as tardes conversando sobre tudo em meio a camisas de clubes de marcas como Finta, Rhummel, Penalty e Diadora, além das clássicas Umbro e Adidas (naquela época, a Nike era um sonho distante).

A turma que frequentava a loja era fiel nas compras. Eu mesmo guardo até hoje uma camisa do Ajax de 1995. Às vezes, a reunião era tão intensa que os irmãos mais velhosprecisavam pedir ordem, afinal a empresa não era exatamente um clube social ou esportivo.

Na mesma Júlio de Castilhos, mais adiante em direção à João Pessoa, ficava o Café Ponto A. O Sandrinho, vindo de Alagoas, junto da Lu, tocava uma pequena lancheria. Abria às seis da manhã e seguia até a noite. O xis era incrível, e lembro até hoje do Xis Salada a R$ 1,99. A turma passou a se reunir lá também. Muitas vezes o fim de tarde era carregado de alegria e de gurizada espalhada pela calçada. O Sandrinho ficava mais no balcão, enquanto a Lu corria para cima e para baixo na pequena cozinha. Foram bons anos, aliás.

Com o tempo, fomos ficando adultos, arrumando empregos, formando famílias, e as reuniões foram escasseando. Gostaria de lembrar qual foi a última vez que passamos uma tarde de conversas e risadas na Esporte e Cia. ou qual foi o último xis do Ponto A que comi.

A família Magnus foi, por muito tempo, referência em lojas de material esportivo. Hoje os irmãos estão em outros ramos. Já o Sandro e a Lu venderam o Ponto A, foram embora respirar novos ares, mas voltaram. Há treze anos tocam outro lugar que conquistou o coração de muitos: o Garagem Lanches. Sempre que conversamos, lembramos com carinho do Ponto A.

A vida é assim, cheia de despedidas de coisas que deixamos para trás. Não sei quando será a última vez que pegarei uma raquete para jogar tênis, assim como não lembro minha última ida à praia pela serra antiga, em um ônibus do Cheiroso. Neste fim de semana acontece o Planeta Atlântida, e vejo meus amigos que curtiram comigo na praia levando agora seus filhos ao festival. Olho para minha pequena filha e penso que talvez eu tenha essa oportunidade daqui a alguns anos. Se não tiver, vou contar a ela sobre os shows incríveis do Charlie Brown, do Armandinho e do Jota Quest e das peripécias que fazíamos para ir ao festival.

E vou dizer para sempre aproveitar os pequenos momentos e as reuniões com pessoas que ama. Um dia elas terão seu fim, e ela vai lembrar com saudade — assim como eu lembro desses lugares e do que “aprontamos” toda vez que passo em frente a eles.