Antes de você criticar o título, tente olhar com calma para o que vem acontecendo em Canela.
Relacionamentos tóxicos costumam seguir um roteiro conhecido: primeiro vem o prejuízo, depois a justificativa, em seguida a promessa de que “agora vai” e, por fim, a conta — que alguém precisa pagar. No caso, quem paga é a cidade. O problema não é a falha isolada; é a repetição. E repetição, quando envolve serviço essencial, deixa de ser incidente e passa a ser modelo.
E aqui está o detalhe mais incômodo: a Prefeitura trocou de parceiro. Saiu a Corsan estatal, autarquia sob o guarda-chuva do Estado, entrou a Corsan Aegea, empresa privada. O que permaneceu? A dependência — e a dificuldade de romper o ciclo.
Há anos a Corsan já não entregava o que estava previsto em contrato, mas havia equipes estáveis, profissionais que conheciam as redes, as estações de tratamento, que moravam em Canela e faziam parte da comunidade.
Após a privatização, surgiram problemas típicos da lógica privada mal executada: alta rotatividade, falta de mão de obra qualificada e pressão por resultados financeiros rápidos. Na prática, o serviço piorou — e muito.
O resultado é conhecido por qualquer morador: calor, mais calor e o canelense sem água na torneira.
O Município, segundo o secretário Adriel Buss, vem notificando e multando a empresa. Mas isso, por si só, não resolve. Multa irrisória em contrato altamente lucrativo vira custo operacional, não punição.
Não adianta repetir que “é preciso fiscalizar”. Fiscalização sem consequência real é apenas protocolo.
E aqui entra um ponto que muita gente prefere ignorar: a responsabilidade pelo saneamento é municipal. Água e esgoto são atribuições do Município, mesmo quando o serviço é concedido a terceiros. Ao terceirizar a execução, muitas prefeituras acabam terceirizando também a cobrança pública — mas juridicamente a responsabilidade continua sendo da cidade.
Hoje vemos a contradição completa: uma empresa que trabalha mais rápido, abre mais frentes de obra, mas entrega resultados piores. Chegamos ao absurdo de romper rede de água para instalar rede de esgoto, ampliando o problema que deveria ser resolvido.
E, como em qualquer relação que entra em ciclo de desgaste, chega o momento de encarar a pergunta incômoda: até quando?
A Corsan já teve inúmeras oportunidades para provar que mudou. A promessa se repete, o problema também.
O Município precisa de coragem para tomar decisões reais: rever o contrato com sanções pesadas, intervir, municipalizar ou buscar outro operador capaz de cumprir o que prometeu. Qualquer caminho será difícil e terá custo. Mas manter tudo como está tem custo diário — e quem paga é a população.
Se essa união por dependência continuar, quem sofre é a família inteira: nós, canelenses, que pagamos caro e seguimos sem o serviço básico.
Coragem, Prefeitura. Coragem.