Canela,

16 de fevereiro de 2026

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Casal acusa HCC de negligência e violência obstétrica após parto terminar no carro em Canela

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Foto: Izaque Santos/Prefeitura de Canela

Segundo relato, não havia obstetra de plantão. Hospital abriu investigação para apurar os fatos e responsabilidades

Um vídeo publicado nas redes sociais pelo casal Ale Braum e Ramiro Santos viralizou nesta semana em Canela e reacendeu um debate antigo — e crônico — sobre a estrutura e o atendimento no Hospital de Caridade de Canela (HCC). No relato, o casal afirma ter sido vítima de negligência e de uma sequência de situações que caracterizam violência obstétrica durante a busca por atendimento para o parto da segunda filha.

Segundo a denúncia, não havia médico obstetra de plantão no momento em que a gestante chegou ao hospital. Diante disso, ainda conforme o casal, a equipe teria oferecido que o parto fosse conduzido por enfermeiros e um clínico geral, proposta que não foi aceita. Após o impasse, a família decidiu deixar o HCC e seguir por conta própria para Gramado — mas a bebê nasceu no carro, antes que conseguissem chegar ao Hospital Arcanjo São Miguel.

Precisamos entender até aonde é protocolo. E a partir de quando é invasão e violência obstétrica”, escreveu o casal na legenda do Reels. “Negligência também é violência obstétrica. Toque não consentido também. Toque sem conhecimento também. (…) Que nenhuma família precise passar por isso!

A publicação, amplamente comentada e compartilhada, foi feita logo após o parto. “Decidimos fazer este relato porque pode ser que muitas famílias passem por isso e não tenham o desfecho igual ao nosso”, afirmam.

“Sem trocar lençol, sem privacidade”: o que o casal relata

No relato completo, o casal descreve que chegou ao HCC por volta das 5h30, com contrações ritmadas e dor intensa. Segundo eles, o atendimento teria ocorrido na enfermaria da emergência, e não na maternidade, com a gestante colocada em uma cama cuja roupa de cama, segundo a denúncia, não teria sido trocada, em ambiente compartilhado com outros pacientes.

O marido afirma que, em determinado momento, um enfermeiro teria pedido que ele se retirasse para realizar exame, ao que ele se recusou. “Perguntei se ele era obstetra. Ele me falou que não, que eles estavam sem médico, sem obstetra e que estavam sem pediatra”, diz.

O casal também acusa a equipe de deboches relacionados à via de parto e relata tentativas de exame de toque que teriam ocorrido sem consentimento e com despreparo técnico, inclusive com machucado na gestante durante a tentativa do procedimento.

Um dos pontos considerados mais graves na denúncia é a alegação de que uma conversa entre profissional médico e enfermeiro teria revelado que a ambulância ainda não havia sido acionada, apesar do casal afirmar ter cobrado reiteradas vezes a remoção para Gramado.

“Eu ouvi o médico perguntando para o enfermeiro se ele tinha chamado a ambulância. E ele falou que não, que estava esperando o doutor chegar por volta das sete para ele ver e fazer o parto”, afirma o marido no relato. “Eu disse: ‘vocês estão loucos? A criança está nascendo’.”

O casal relata que, mesmo com sinais iminentes do parto, a equipe teria insistido para que a gestante deitasse para realização do toque, enquanto ela buscava uma posição mais confortável devido à dor.

Secretaria de Saúde confirma ausência de obstetra e diz que apuração está em andamento

Na tarde desta segunda-feira (16), o secretário municipal de Saúde, Jean Spall, entrou em contato com a reportagem e enviou nota oficial do HCC. Além disso, afirmou que o Município está realizando uma apuração para esclarecer responsabilidades e confirmou que, naquele momento, o hospital estava sem obstetra de plantão, embora não tenha informado, até o momento, o motivo.

Por outro lado, o secretário informou que havia pediatra, e que, segundo a avaliação da gestão, o bebê poderia ter nascido em Canela. Ainda segundo a Secretaria, há relatos de funcionários que divergem do que foi narrado pelo casal.

Nota do HCC: hospital diz que paciente saiu “sem autorização” e apresenta cronologia do atendimento

Em nota, assinada pelo interventor Cezar Augusto Chaves, o Hospital de Caridade de Canela afirma ter tomado conhecimento do relato e informa que determinou apuração interna imediata, com instauração de procedimento administrativo, além de preservação de prontuários, escalas e registros de plantão.

O hospital também divulgou uma cronologia do atendimento baseada em seus registros internos. Segundo o HCC, do início ao fim do período em que a paciente permaneceu na unidade, transcorreram aproximadamente 46 minutos. O hospital sustenta que a saída ocorreu antes da conclusão do fluxo de transferência que estaria em andamento, e afirma que o caso foi formalmente registrado, inclusive com comunicação às autoridades competentes, “conforme protocolo”.

O caso reacende debate sobre parto, segurança e direitos das gestantes

A denúncia gerou repercussão especialmente por tocar em um tema sensível: o direito a um parto seguro, digno e respeitoso. A violência obstétrica, termo usado pelo casal, engloba práticas como procedimentos sem consentimento, humilhação, constrangimento, negligência no atendimento e imposição de condutas sem explicação clara ou alternativa.

No relato, o casal resume o sentimento que mobilizou milhares de interações: “É triste a gente ter que pensar se é mais seguro ganhar em casa ou no carro do que no hospital, que deveria acolher e mediar isso.”

A reportagem segue acompanhando a apuração anunciada pelo hospital e pela Secretaria de

Leia a nota na íntegra:

NOTA OFICIAL DO HOSPITAL DE CARIDADE DE CANELA

O Hospital de Caridade de Canela, por meio de seu Interventor, Cezar Augusto Chaves, informa que tomou conhecimento do relato divulgado nas redes sociais envolvendo atendimento obstétrico realizado na instituição.

Diante da repercussão e da gravidade dos fatos narrados, foi determinada a imediata apuração interna, com instauração de procedimento administrativo para esclarecimento completo da situação.

Também foi determinada a preservação integral de todos os registros e documentos relacionados ao atendimento, incluindo prontuário, escalas e registros de plantão, garantindo análise técnica criteriosa, responsável e imparcial.

Conforme registros internos, a cronologia do atendimento foi a seguinte:

  1. 05h27 – Chegada da paciente à unidade hospitalar;
  2. 05h30 – Início do atendimento pela equipe de plantão;
  3. 06h01 – Confirmação de aceite para encaminhamento a hospital de referência com suporte obstétrico completo;
  4. 06h05 – Contato com a empresa responsável pela remoção;
  5. 06h13 – Saída da paciente da unidade hospitalar, sem autorização da equipe médica;
  6. 06h20 – Chegada da ambulância ao HCC.

De acordo com os registros, desde a chegada até a saída da paciente transcorreram aproximadamente 46 minutos. Importante mencionar que a saída ocorreu antes da conclusão do fluxo de transferência que estava em andamento, sem que houvesse autorização da equipe médica. A circunstância da saída da paciente também integra o procedimento de apuração instaurado.

O ocorrido foi formalmente registrado, inclusive com comunicação às autoridades competentes, conforme protocolo adotado em situações dessa natureza. Todos os fatos encontram-se devidamente documentados e estão sendo analisados no procedimento instaurado, observando-se rigorosamente o devido processo legal, com respeito aos direitos de todas as partes envolvidas, especialmente ao contraditório e à ampla defesa.

O Hospital reafirma seu compromisso com a vida, com a segurança das gestantes e recém-nascidos e com a qualidade do atendimento prestado à comunidade.

Canela, 16 de fevereiro de 2026.

Cezar Augusto Chaves

Interventor

Hospital de Caridade de Canela