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17 de junho de 2026

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Opinião | Francisco Rocha

Este gato gostoso do Cabelinho e os fantasmas que permanecem

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As redes, as informações, o imaginário que vira realidade e o que de fato queremos fortalecer…

Hoje Débora Deon marcou a Folha em um de seus vídeos. Gostei. Dei risada. Mas confesso que me incomodei quando ela citou o Márcio Diehl Forti como “gato, gostoso”. Como assim? Perdi meu posto e não sabia?
Brincadeiras à parte — e elas fazem parte do jogo digital — o episódio me fez lembrar de um vídeo que assisti no fim de semana, do jornalista Eduardo Dornelles, refletindo sobre o impacto das performances nas redes sociais. Ele falava do ambiente esportivo, mas a discussão é bem maior que futebol. É sobre cultura. É sobre imaginário. É sobre o que escolhemos amplificar.

Na semana passada surgiu a polêmica: a extensão da Escola Municipal Santa Terezinha passaria a funcionar em um prédio que já foi salão de festas, igreja evangélica e capela mortuária. Bastou isso para as mensagens começarem a pipocar:
— Tu vai ficar quieto?
Não fiquei. Fui atrás.

Conversei com o vice-prefeito e secretário municipal de Educação, Gilberto Tegner, o Tolão. Ele confirmou a mudança, explicou que o local foi reformado, transformado em quatro salas amplas, destinadas a alunos que estavam apertados na escola original. Relatou que pais e crianças aprovaram o espaço. E mais: como a extensão fica distante da sede, foi providenciado transporte para quem precisar.

Editorialmente, a conta fechou. Não vi ali um escândalo. Vi uma solução improvisada, talvez apressada na comunicação — e aqui há crítica válida, sim, pois avisar famílias quatro dias antes de uma mudança não é o ideal —, mas não um atentado à educação pública.

Optei por não transformar o tema em manchete.
Enquanto isso, nas redes, o assunto ganhou outra dimensão. A avó influencer, com grande alcance, trouxe uma preocupação sincera: o prédio já foi capela mortuária, a “energia” não seria adequada às crianças. Direito dela manifestar? Absoluto. E nisso não há discussão.

Nosso colunista Márcio Diehl Forti, o Cabelinho — agora oficialmente promovido a “gato gostoso” — escreveu sua opinião: não via problema no local e lembrou que os fantasmas que deveriam preocupar Canela talvez fossem outros, como a Escola Infantil Tio Beto, que segue no papel.

E aí entra o ponto que me fez escrever esta coluna.
Enquanto debatíamos energia espiritual de um prédio reformado, a Justiça determinava busca e apreensão e afastava gestores da Casa Lar de Canela por suspeita de apropriação de benefício assistencial de uma menina abrigada. Isso, sim, é um fantasma pesado. Um leão. Um problema estrutural.

Mas qual assunto mobilizou mais emoção?
É aqui que o paralelo com o vídeo do Dornelles faz sentido. Ele questionava o impacto das performances no ambiente esportivo. Eu pergunto: qual o impacto das narrativas incompletas no ambiente público de uma cidade?

Não estou aqui para blindar Prefeitura, secretário ou servidor. Cargo público é, por definição, escrutínio permanente. E quem ocupa função pública é pago para suportar crítica.

O que me inquieta é outra coisa: o peso desproporcional que certos temas ganham na balança da rede social.
Uma informação pela metade, somada a uma narrativa emocional, vira combustível. E combustível gera engajamento. Engajamento gera alcance. Alcance gera influência.

Mas influencia para quê?
Para aprimorar políticas públicas?
Para exigir comunicação melhor?
Ou para criar um clima de suspeita permanente?

Antes do digital, a imprensa tradicional operava com linha editorial — aquilo que alguns chamam de “gatekeeping”. Não era censura. Era responsabilidade. Nem tudo que rende clique rende serviço público.
Hoje, qualquer celular é uma emissora. E isso é maravilhoso. Democratiza. Dá voz. Quebra monopólios. Mas também elimina filtros. E sem filtro, emoção bruta circula mais rápido que contexto.

Não se trata de escolher entre jornalismo e rede social. As redes são parte do ecossistema. Muitos veículos — inclusive nós — estão nelas. A diferença está no compromisso.

Compromisso com a informação completa.
Com todos os lados.
Com o tempo necessário para apurar.
A verdade, sozinha, raramente grita. Ela exige trabalho.

Talvez o grande desafio não seja discutir se o prédio já foi capela mortuária. Prédios têm história. Cidades têm história. Nós, gaúchos, transformamos galpão em CTG, armazém em restaurante, estação em centro cultural. O que importa é o que se faz dali para frente.

O desafio é escolher quais fantasmas queremos enfrentar.
Os imaginários, que rendem vídeo e corte viral.
Ou os reais, que exigem investigação, responsabilidade e coragem.
E aqui deixo a pergunta que vale mais que qualquer curtida:
Que cultura estamos fortalecendo quando compartilhamos algo?
Porque todo conteúdo cria imaginário – vide o “gato gostoso”, isso não pode se perpetuar, mas já viralizou!

Afinal, e sério agora, imaginário vira ambiente. E ambiente, cedo ou tarde, vira realidade.

Por fim, a Folha segue aberta a todas as manifestações da comunidade — sempre esteve. Mas elas passarão pelo nosso pente fino editorial. Não para proteger A ou B, e sim para proteger o compromisso com a informação completa.
Que no fim, todos ganhem: Prefeitura e pais. Mas, sobretudo, os alunos.