Canela,

9 de junho de 2026

Cabelo

OPINIÃO FORTI

Márcio Diehl Forti

A Abstinência que Eu não sabia que existia

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Ser pai está sendo uma experiência incrível. Não vou discorrer sobre todos os processos e recompensas, porque a coluna não é sobre isso. Mas preciso reconhecer que ser pai é entregar coisas preciosas a um ser pequeno, indefeso e maravilhoso. Uma delas é o tempo. Passar os dias com minha filha tem sido espetacular; aprendo demais com ela. Porém, com os desafios da vida profissional sempre batendo à porta e os cuidados que a pequena Cecília demanda, acabei abrindo mão temporariamente de algo igualmente valioso e muitas vezes subestimado: o convívio com os amigos.

Sempre me orgulhei das amizades duradouras e especiais que tenho. Muitos dos sonhos que realizei foram vividos ao lado de grandes amigos. A única escapada que tive desde o nascimento da Cecília foi uma ida a São Paulo para assistir ao AC/DC com amigos de longa data. Confesso que, em certo momento do show, me peguei pensando em quão sortudo sou por ter pessoas tão espetaculares para chamar de amigos. Ao meu lado estava alguém com quem compartilho 37 anos de amizade. Amigo que não soltou minha mão em momentos difíceis, amigo que é cunhado de outro e acabou se tornando tão próximo quanto. Havia amigas, amigos que chegaram depois e, principalmente, havia a celebração desse afeto que, se não é de sangue, é de convivência. Nesta semana percebi que estou em abstinência da companhia desses caras. Estou culpando meu novo momento? Jamais. Mas parei para refletir ainda mais sobre as amizades que fazemos e muitas vezes deixamos para trás. Sinto falta de todas elas: da turma do Marista, da galera da Danton, dos times Gruta Azul, MAC e Serrano, da UCS e da Unisinos, da equipe da TIM que virou amiga, e de tantos outros que a vida acabou afastando.

Estudos em psicologia e saúde pública indicam que o convívio com amigos é especialmente importante para a saúde mental masculina. Pesquisas mostram que homens costumam ter redes de apoio emocional menores e, muitas vezes, poucos amigos com quem compartilhar sentimentos, o que aumenta o risco de solidão e problemas como depressão. Nesse contexto, as amizades funcionam como fator de proteção, fortalecendo o sentimento de pertencimento, reduzindo o estresse e oferecendo apoio social. Mesmo quando surgem principalmente por meio de atividades compartilhadas, como esportes ou encontros sociais, essas interações contribuem significativamente para o bem-estar psicológico e para a qualidade de vida. Eu não posso me queixar: considero-me um cara de sorte por ter bons e valorosos amigos.

A amizade, como lembram grandes pensadores brasileiros, é uma das experiências mais profundas da vida. O gremista Paulo Sant’Ana dizia que “amigo é aquele que entra quando o resto do mundo já saiu”, revelando a força da presença nos momentos difíceis. Já o colorado Fabrício Carpinejar traduz a delicadeza desse vínculo ao afirmar que “amizade é quando o silêncio não constrange, ele acolhe”, mostrando que a verdadeira conexão dispensa explicações. E o filósofo Mário Sérgio Cortella completa ao lembrar que “a amizade verdadeira não exige presença constante, exige lealdade constante”. Juntas, essas reflexões mostram que a amizade não se mede pela frequência dos encontros, mas pela sinceridade, pela confiança e pela certeza de que alguém permanece ao nosso lado, mesmo quando o mundo parece se afastar.

Você pode me perguntar: o que essa reflexão sobre amizade tem a ver com a coluna que fala sobre Canela e suas peculiaridades? Digo isso porque, na semana passada, as redes sociais bombaram após meus escritos. A Débora Deon respondeu, o Chico repercutiu e a coisa tomou outra proporção. Fiz uma coluna respondendo não à Débora, que foi educada e discordou de mim, mas há muitas afirmações que considero injustas sobre o trabalho que desenvolvo, não apenas aqui na Folha, mas também na Clube. Dizer que eu “ganho para defender o poder público”, por exemplo, não faz sentido algum. Então fiz o que achei coerente: mandei a coluna para um grande amigo antes de enviar ao Chico. Ele fez o que um amigo deve fazer: disse que não valia a pena seguir com essa “treta”. Muitos comentários nas redes sociais são rasos, no sentido de que a pessoa não chega a ler os textos, apenas se baseia em manchetes ou no que outros comentaram. Contra esse tipo de pensamento não há argumento. É melhor deixar essa turma falando sozinha.

E é por isso que precisamos estar perto dos amigos: seja para celebrar, seja para ouvir verdades ou simplesmente para estar junto. Minha abstinência em breve vai acabar, e a Cecília estará cercada de um monte de “tios” legais que vão mostrar a ela que a verdadeira riqueza é ter amigos que te querem bem, independentemente de status, conta bancária ou novos apelidos, como o de “gato gostoso”!