A Corsan faz em Canela o que não teria coragem de fazer em Gramado.
Essa é a verdade nua e crua.
Aqui, ela rasga ruas, remenda mal, bloqueia acessos, atrapalha comerciantes, irrita moradores, deixa vazamento correndo por semanas e toca a vida como se estivesse prestando um favor à cidade. Não está. Está prestando — e mal — um serviço público concedido, pago pelo cidadão e pelo empreendedor canelense.
Quem quiser prova, não precisa de relatório técnico nem de apresentação em PowerPoint. Basta dar uma volta pelo bairro Palace Hotel. O cenário fala por si.
As ruas são abertas para a passagem da tubulação do esgoto cloacal e, depois, vêm os remendos. Ou melhor: dizem que vêm os remendos. Porque quando vêm, o serviço fica longe de devolver a via ao que era antes. Fica feio, mal acabado e com cara de improviso. Em resumo: estraga-se a cidade e ainda se entrega um conserto porco.
E não vou nem me aprofundar hoje no drama do abastecimento de água, porque aí a coluna vira série.
Mas o problema existe. E existe com força. Tenho relato de uma empresária do setor de hospedagem que, em plena alta temporada, precisou deixar de receber novos hóspedes porque a água simplesmente não chegava para abastecer as caixas da pousada. Em uma cidade turística, isso não é detalhe. É prejuízo, desgaste e humilhação para quem trabalha sério.
Na Júlio de Castilhos, próximo à Rua Rodolfo Schlieper, há um vazamento escorrendo sobre o asfalto há mais de um mês. Eu mesmo avisei a Corsan. Passei novamente pelo local e nada havia sido resolvido. Nem um vazamento visível, simples e exposto eles conseguem atacar com a urgência necessária. Imagine, então, o restante.
Tudo isso revela um padrão. E o padrão é de serviço ruim, falta de planejamento, desorganização e absoluto descompromisso com Canela.
Mas teve um episódio nesta semana que conseguiu piorar a impressão.
Fui visitar um cliente que tem restaurante e encontrei o acesso ao estacionamento bloqueado pela Corsan. Tive de estacionar longe e seguir a pé. Ao chegar em frente ao estabelecimento, percebi o absurdo: a rua estava isolada, mas a equipe da empresa trabalhava uma quadra acima.
Ou seja: bloquearam o acesso de um restaurante em pleno meio-dia, no horário mais sensível para o movimento da casa, sem sequer estarem operando exatamente ali. No popular, fecharam porque sim.
E quem pagou a conta? O empresário, claro. Sempre ele. O sujeito que gera emprego, paga imposto, abre cedo, fecha tarde e ainda precisa conviver com a genialidade logística de quem parece não ter a menor noção do dano que causa.
Poderiam ter aguardado o fim do horário de almoço? Poderiam.
Poderiam organizar melhor a intervenção? Poderiam.
Poderiam ter o mínimo de bom senso? Deveriam.
Mas, em Canela, a sensação é de que a Corsan não trabalha com planejamento. Trabalha com imposição. A cidade que se adapte.
Aí, por coincidência ou ironia do destino, abro o WhatsApp e vejo a divulgação de uma sessão especial da Câmara de Gramado com a Corsan, apresentando cronograma de obras e planejamento do saneamento no município.
Olha só que interessante.
Em Gramado, apresenta cronograma.
Em Gramado, explica.
Em Gramado, presta contas.
Em Gramado, parece ter medo de errar.
Em Canela, faz o que bem entende.
É por isso que digo: a Corsan não respeita Canela, mas morre de medo de Gramado.
Se eu fosse o prefeito Gilberto Cezar, a orientação era simples: fiscalização cerrada e multa em dose homeopática. Duas de manhã, duas à tarde. Todo dia, se necessário. Quem não entende por respeito, talvez entenda por autuação. Porque notificação, convenhamos, até rede social entrega.
E aqui cabe um parêntese.
Outro dia eu até pensei que, se falta mão de obra para fiscalizar a Corsan, bastava remanejar os amarelinhos (aqueles que “cuidam” do estacionamento rotivo) para auxiliar nesse serviço. Eles fotografavam as irregularidades e mandavam de longe para quem autua.
Pronto, problema resolvido. Ironia, claro. Tenho certeza de que a Prefeitura sabe que quem não tem fé pública não pode atuar como se tivesse.
Então, já que o enredo parece tão moderno quando convém, por que não usar a mesma “agilidade” para enquadrar a Corsan quando ela arrebenta a cidade?
Falando sério: a Prefeitura, que costuma ser leão com o cidadão e com o empreendedor na hora de cobrar regra, taxa, postura e obrigação, deveria ser leão também com a concessionária. Mas, diante da Corsan, parece virar gatinho.
E nem me venham com a velha ironia do “privatiza que melhora”.
Melhora onde?
A Corsan hoje é empresa privada prestando serviço público concedido. Isso não é livre mercado. Isso não é concorrência. Isso não é o consumidor escolhendo a melhor opção. Isso é monopólio de um serviço essencial, com obrigação de eficiência, planejamento e respeito.
Privatização de verdade, com competição de mercado, é o que ocorre na telefonia e na internet, em que o cidadão pode comparar preço, qualidade e atendimento. Aqui, não. Aqui o canelense fica refém.
E o pior de tudo nem é só o serviço ruim da Corsan.
O pior é a naturalização desse desrespeito.
Pouca vergonha é a empresa entregar esse nível de serviço.
Mais feio ainda é o poder público assistir a tudo com cara de paisagem.
Tenho dito.