Eu preciso começar este texto contextualizando um pouco da história da nossa imprensa escrita aqui da região. Não vou longe; vou me ater à parte mais moderna. Por muito tempo, nossa cidade era abastecida com informações do então Nova Época, da família Viezzer, e, na cidade vizinha, pelo tradicional Jornal de Gramado. As edições semanais de sexta traziam muita informação e tinham tiragens grandes. Era assim que as comunidades se informavam. Com o passar dos anos, as demandas aumentaram e as tiragens passaram a ser bissemanais, às terças e sextas.
Em meio a isso, surgiu um novo e forte veículo na região: o Jornal Integração, fundado pelo jornalista Claudio Scherer, que trouxe uma nova perspectiva aos leitores. Falava livremente das duas cidades, tinha diversos colunistas e injetou frescor e inovação no jornalismo impresso local. O Integração mexeu com o mercado. Colunistas como o próprio Scherer, Alessandro Martins e Francisco Rocha entregavam opiniões fortes e polêmicas. O Nova Época já havia se tornado Jornal de Canela, e o Jornal de Gramado iniciou uma transição que culminou na aquisição pelo Grupo Sinos. A internet acelerou tudo, e alguns veículos e profissionais ficaram pelo caminho. A família Viezzer vendeu a marca Nova Época, que foi reformulada pela Marina e pelo Bira. Francisco Rocha, que atuava no Integração, criou a Folha de Canela, enquanto o Integração seguia firme.
Aí, aquilo que era perfumaria — um portal atualizado — virou obrigação. E o Chico Rocha foi o mais rápido a entender isso: o Portal da Folha virou favorito nos navegadores de muita gente em Canela. Outros veículos seguiram o mesmo caminho, e surgiram bons portais comandados por gente como Flavio Prestes, Alexandre Cruz e Miron Neto.
E aqui registro: muitos bons jornalistas da minha geração passaram por esses veículos. Além do Flavio, lembro de André Aguirre, Halder Ramos, Luciano Nunes, Eduardo Saueressig, Patricia Oliveira e tantos outros. A imprensa escrita sempre esteve bem servida na região.
Eu me criei lendo tudo o que aparecia pela frente. Trabalhei numa empresa onde tinha acesso a todos os veículos da região e do estado. As colunas opinativas sempre me chamaram atenção. Ícones como Paulo Sant’Anna, David Coimbra, Wianey Carlet, Juremir Machado da Silva, Juarez Fonseca e tantos outros me mostraram visões incríveis sobre temas diversos. Aqui na região, também era abastecido por colunistas como Marcão Viezzer, Miron Neto, Claudio Scherer e tantos outros. Discordava de muita coisa — e isso é o mais natural. Às vezes mandava até e-mail pro Chico respondendo provocações grenais da coluna dele. Levamos pro coração? Claro que não. Tanto que hoje colaboro com ele semanalmente aqui no Portal da Folha.
Aliás, escrevo colunas opinativas há quase 15 anos. Estreei na nova versão do Nova Época falando sobre o Internacional. Depois colaborei com o Jornal de Gramado falando sobre o Colorado e esportes em geral. Voltei ao Nova Época para escrever sobre a nossa cidade e, há um bom tempo, estou na Folha. Acho que alguma coisa positiva eu construí — assim como todos os nomes que citei.
Mas vivemos um momento, no mínimo, estranho quando falamos de imprensa escrita (e aqui incluo portais, blogs e páginas pessoais). Tem muito aproveitador se vendendo como novidade ou como jornalista sem ter sequer o segundo grau. Tem sujeito que não sabe formular um raciocínio e posa de supra-sumo da informação na região. E aí entra o discernimento — que às vezes falta a quem consome conteúdo.
Eu preciso falar sobre um livro. Dom Quixote conta a história de um fidalgo espanhol que enlouquece de tanto ler romances de cavalaria e decide tornar-se cavaleiro andante. Montado em seu cavalo magro, Rocinante, sai pelo interior da Espanha em busca de aventuras, mas sua imaginação o faz confundir moinhos de vento com gigantes, estalagens com castelos e pessoas comuns com personagens heroicos. A força da obra está justamente no contraste entre o mundo real e o mundo fantástico que Dom Quixote insiste em enxergar — criando situações cômicas, mas também reflexões profundas sobre idealismo, coragem e a necessidade humana de dar sentido à vida.
Dom Quixote é um sonhador incorrigível, movido por um ideal de justiça que só existe na cabeça dele. Seu fiel escudeiro, Sancho Pança, é o oposto: pé no chão, prático, atento às necessidades básicas. A relação entre os dois é o coração da história — Sancho tenta proteger o amo das próprias ilusões, mas também se deixa contagiar por elas; Quixote precisa de Sancho para manter algum contato com a realidade. Juntos, simbolizam o equilíbrio entre sonho e pragmatismo.
Mas, Cabelinho, o que Dom Quixote tem a ver com tudo o que escrevi acima? Pois é. Existem pessoas que, por terem feito algo que julgaram importante em algum momento da vida, estão se tornando Don Quixotes mas numa versão canhestra, farsante e sem um Sancho Pança para dar um choque de realidade nas figuras.
Semana passada, fui plagiado por um desses Don Quixotes. Um cidadão que mantém uma página dedicada a atacar 100% do atual governo achou que tinha o direito de jogar minha coluna no ChatGPT, reescrevê-la e publicar como se fosse dele em sua página de Facebook, que se vende como portal de notícias. Primeiramente: isso é passível de processo. Não vou mover um porque acredito que a Justiça tem coisas mais importantes para se preocupar. Mas, segundamente, o sujeito usou uma opinião minha, disfarçada de ideia dele, para novamente atacar o governo Gilberto Cézar. Isso é de uma leviandade absurda. Nos meus espaços, critico o governo quando acho justo e também elogio. Não bebo na orelha de ninguém e nunca me pediram para mudar minha linha de raciocínio. Liberdade de expressão — mas da minha expressão.
A verdade é que hoje, com a IA a mil, qualquer cidadão que souber dar um comando decente pode até formular uma boa notícia. Mas conquistar credibilidade é outra história.
Falando em comando bom, vou ajudar meu plagiador com um prompt para ele copiar e colar na sua próxima incursão pela inteligência artificial:
“Ajuste este texto para que pareça feito por alguém com parco poder de síntese, sérias dificuldades com a língua portuguesa e que se vende como importante porque ocupou um cargo de confiança no governo anterior. Essa pessoa se julga muito competente por ter feito um trabalho básico na defesa civil de um município que sofreu com enchente e também com corrupção durante a gestão da qual essa pessoa vivia puxando o saco. Além disso, crie uma emoção para impactar os internautas e fazê-los acreditar que quem escreve tem condições de ser candidato a vereador no município, mesmo não conseguindo formular um raciocínio mínimo quando necessário.”
Espero que isso seja mais útil ao Don Quixote do que ele é para a nossa cidade!