Eu confesso que ando cheio de dedos para escrever sobre o Hospital de Caridade de Canela. Não gosto do sensacionalismo que se faz com pessoas em situação delicada de saúde. Mesmo quando elas próprias se expõem, eu me sinto constrangido.
Se formos para as redes sociais, então, a coisa degringola. É reclamação, acusação e, infelizmente, muita falta de noção. Para analisar a situação sem pré-conceitos, precisamos entender que hoje boa parte do que acontece na saúde da cidade é atravessado por atuação política.
Explico. Quantos agentes públicos, nos últimos anos, foram eleitos por suas atuações na saúde? Tivemos vereadores que puxaram votos quase exclusivamente por seus trabalhos na Secretaria de Saúde. Você fica mais suscetível a críticas? Fica. Mas também pode capitalizar politicamente? Pode, e muitos fazem.
Vamos ao Hospital de Caridade de Canela. Com a intervenção do poder público, a questão virou política de vez. Indicações vêm da prefeitura, cargos são ligados a políticos e isso complica tudo. Quem trabalha com informação recebe muita coisa, mas muita mesmo. Aí entra o filtro: o que é maldade, o que é fofoca e o que realmente vira notícia.
E o fato é que hoje o Hospital está com defasagem de profissionais em diversas especialidades. Não é exclusividade de Canela? Não. Mas eu escrevo sobre a nossa cidade. É sabido que trabalhar em hospitais como o nosso deixou de ser desejável para cardiologistas, neuropediatras e até obstetras. A equação é simples: investimento alto em formação, retorno baixo no SUS. Clínicas particulares pagam o que o profissional vale. O sistema público, não.
E tem o fator humano. A pressão. Quando se lida com pacientes e familiares em seus piores momentos, você está suscetível a cobranças agressivas — e até agressões. Nem todo profissional quer se submeter a isso. Ainda mais quando qualquer pessoa com um celular na mão pode transformar um médico em vilão antes mesmo de ele se defender. O vídeo viraliza, e a vida do profissional vira um inferno. Eu me coloco no lugar de um médico: ganhar melhor e não correr risco desnecessário, ou ganhar menos e ainda ser alvo de hostilidade? A escolha é óbvia.
Então quer dizer que o HCC não tem como captar profissionais capacitados? Tem. Mas é preciso entender quem são os gestores capazes de atrair esses médicos — e qual estrutura será oferecida a eles.
O atual interventor, Cezar Chaves, declarou que o Hospital precisaria de 100 mil reais para organizar os apontamentos que impedem o alvará sanitário. Pelo visto, se equivocou. Aliás, já passaram diversas pessoas pelo Hospital e ninguém resolveu. O déficit segue firme, e a estrutura segue frágil. O cidadão também não ajuda: vai ao Hospital quando poderia consultar nos postos de saúde. E muita gente defende o fechamento do HCC. Seria o caos, mas não seria surpresa.
E aí ficam minhas dúvidas: Quem são os donos oficiais do Hospital de Caridade de Canela? Até quando a prefeitura vai sustentar essa intervenção? Por que ninguém resolve o alvará? Quantos interventores ainda vão passar por lá? Quantos cargos políticos existem hoje dentro da instituição? E o pulso: até quando vai conseguir pulsar?