A reportagem da Folha recebeu a nova administradora do abrigo para conhecer os desafios da instituição e como ela pode continuar a transformar vidas
A antiga Casa Lar de Canela vive um novo momento. Agora sob intervenção judicial e com nova gestão, a instituição passou a se chamar Abrigo Acolher e busca reorganizar sua estrutura, qualificar o atendimento e reforçar o foco principal do serviço: o cuidado com crianças e adolescentes em situação de acolhimento.
Em entrevista à Folha, o jornalista Francisco Rocha conversou com a nova interventora judicial do abrigo, Rosane Bernardete Brochier Kist, e com a secretária municipal de Assistência Social, Carmen Seibt, para entender como está sendo conduzida esta transição e quais são os próximos passos para o futuro da instituição.
Atualmente, o abrigo atende 17 crianças e adolescentes. Quando ocorreu a intervenção judicial, eram 14 acolhidos. Todos permanecem no prédio recentemente reformado e entregue com apoio da comunidade, localizado na Vila Maggi. Já as instalações antes utilizadas no bairro Canelinha não mantêm mais qualquer atividade ou vínculo com o abrigo.

Segundo as informações repassadas à Folha, a instituição ainda passa por um processo de transição administrativa. Ainda existem contratos vinculados ao CNPJ da antiga mantenedora, a Associação Rosa de Saron, além de alguns profissionais que seguem contratados pela antiga instituição. Apesar disso, a gestão do abrigo passou a ser conduzida por Rosane, nomeada judicialmente como interventora, e a equipe técnica do serviço foi substituída nesta semana.
De acordo com a secretária Carmen Seibt, a Prefeitura de Canela já trabalha para providenciar o encerramento contratual da antiga estrutura e busca uma nova administradora para o abrigo. Em reunião com o município, a própria Associação Rosa de Saron também teria manifestado interesse em encerrar o contrato relacionado à instituição.
Tanto a nova gestão quanto a Prefeitura fazem questão de deixar claro que a Associação Rosa de Saron possui diferentes frentes de atuação e que apenas um desses braços era responsável pela Casa Lar, hoje em nova fase e sob intervenção judicial.
Rosane Bernardete Brochier Kist assume a função trazendo experiência na área. Ela é assistente social, com atuação em abrigos de crianças e adolescentes em Santa Cruz do Sul e Gramado, além de ser perita judicial há 20 anos e mediadora cível da Justiça Federal. A escolha de seu nome, segundo o que foi relatado, busca dar respaldo técnico a esse momento de reestruturação.

Para a nova interventora, o principal desafio agora é a reorganização das dinâmicas da casa e a formação de uma equipe alinhada com as políticas que passarão a orientar o abrigo. Segundo ela, o foco precisa estar, antes de tudo, nas crianças e adolescentes acolhidos.
A prioridade, conforme destacou Rosane, é que toda a equipe compreenda que o centro do trabalho é o cuidado com essas crianças. Em um segundo momento, ela também defende atenção especial aos próprios trabalhadores do abrigo, que lidam com situações delicadas e, muitas vezes, atravessadas por questões complexas de saúde mental. Na visão da interventora, para que o acolhimento seja de qualidade, também é necessário que a equipe seja cuidada, valorizada e preparada.
Outro ponto central da nova gestão é a compreensão de que o abrigo deve ser um espaço transitório. Rosane defende que crianças e adolescentes não permaneçam acolhidos além do necessário e que o trabalho da rede esteja voltado ao fortalecimento das famílias e à reconstrução de vínculos.
Segundo ela, a prioridade é fazer a mediação com a família estendida, oferecendo suporte e acompanhamento para que essas famílias possam se estruturar e, quando possível, voltar a receber as crianças e adolescentes. Em resumo, a proposta é resgatar e fortalecer vínculos familiares.
Na avaliação da interventora, por melhor que seja a estrutura física e por mais acolhedor que seja o ambiente, o abrigo não substitui o convívio familiar. O tempo de acolhimento, portanto, deve servir também para que familiares possam se reorganizar, com apoio da rede de proteção, e retomem seu papel na vida dessas crianças.
A fala reforça um princípio já conhecido na política de assistência: o acolhimento institucional é uma medida de proteção necessária, mas deve ser entendida como o último passo dentro de uma cadeia de acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade ou violência.
Neste novo capítulo, o Abrigo Acolher tenta reconstruir não apenas a sua gestão, mas também sua identidade diante da comunidade. A proposta da nova administração é trabalhar com mais transparência, responsabilidade e foco no bem-estar dos acolhidos, em uma etapa que ainda exigirá ajustes administrativos, definição de nova mantenedora e consolidação da equipe.
Ao mesmo tempo, a Prefeitura de Canela sinaliza que seguirá acompanhando de perto o processo, já que a Secretaria de Assistência Social é o principal elo institucional da rede de apoio e também a principal repassadora de recursos ao abrigo.
O desafio, agora, é fazer com que a mudança de nome represente também uma mudança de prática, de ambiente e de perspectiva para crianças e adolescentes que, mais do que abrigo, precisam de proteção, cuidado e chance real de reconstruir laços e futuros.