Que se diga, portanto, o que precisa ser dito: parabéns à atual administração por começar. Agora, que também se diga o restante: começar era obrigação; terminar é que será mérito!
Depois de tantos anos vendo Canela improvisar o que não deveria ser improvisado, enfim surge um sinal concreto de que o sonho do primeiro Ginásio Municipal começa a deixar de ser apenas discurso de campanha, desejo de atleta ou promessa de bastidor.
No último dia 13, a Prefeitura de Canela abriu a concorrência pública para contratar a empresa que ficará responsável pela elaboração completa do projeto básico, executivo e complementares do novo ginásio municipal. O valor de referência desta etapa é de R$ 208.639,96 e a abertura das propostas está marcada para o próximo dia 29 de abril. Ou seja: ainda não é a obra, mas já é, finalmente, o começo formal do caminho.
E em Canela, quando uma ideia sai da conversa e entra no edital, já merece registro. Porque aqui, convenhamos, muita coisa morre no entusiasmo inicial, no anúncio bonito, na arte para rede social e na famosa maquete invisível.
O projeto previsto para a área pública próxima à RS-235, no bairro Canelinha, junto ao novo CRAS, não é pouca coisa. Os documentos falam em uma estrutura pensada para receber quadra poliesportiva com dimensões oficiais, arquibancadas, quatro vestiários, salas multiuso, cabine de imprensa, palco, cantina, academia municipal, foyer, sanitários adaptados e capacidade para 2 mil pessoas. Em outras palavras: não se trata de um puxadinho esportivo, mas de um equipamento público que pode, de fato, mudar o patamar do esporte e dos eventos comunitários em Canela.
E isso é importante dizer sem rodeios: Canela nunca teve um ginásio municipal de verdade.
O que o município teve até hoje foram espaços úteis, sim, mas limitados. Ginásios que servem, que quebram galho, que acolhem competições e atividades escolares, mas que estão longe da estrutura ideal para uma cidade que cresceu, ampliou seus campeonatos, fortaleceu o esporte de base e há anos merece uma quadra oficial, com dimensões corretas, melhor logística e capacidade de receber grandes eventos.
Por isso, recebo essa abertura de processo com satisfação sincera.
Seria injusto não reconhecer que, neste momento, a atual administração começa a colocar esse sonho demorado e necessário nos trilhos. E aqui cabe um registro político e administrativo que precisa ser feito. Com Gilberto Tegner à frente da Educação e Marcelo Savi no Esporte, o município começa a dar os primeiros passos concretos para tirar o ginásio municipal do terreno das intenções e levá-lo ao campo da execução.
Não é pouca coisa.
Num município acostumado a conviver com carências históricas no esporte, abrir o processo do projeto já representa um avanço. É o tipo de passo que não resolve tudo, mas resolve o principal: tira a desculpa da inércia.
Dito isso, também não dá para dourar a pílula.
A boa notícia não apaga um problema evidente: até esse ginásio ficar pronto, o esporte canelense seguirá esperando.
E essa talvez seja a parte mais incômoda da história. Porque o projeto executivo ainda será contratado, elaborado, aprovado e compatibilizado. Depois disso, virá nova licitação, desta vez para a construção. E só então, se tudo andar sem atrasos, sem recursos, sem entraves burocráticos e sem a tradicional lentidão da máquina pública, a obra poderá sair do chão. O próprio edital prevê prazo de até 180 dias para execução dos serviços de projeto, o que mostra que este é um processo sério, técnico e, naturalmente, demorado.
Traduzindo para o português das arquibancadas: o sonho começou, mas ninguém deve esperar inauguração para amanhã.
É bem possível que ainda passem muitos campeonatos municipais em quadras improvisadas ou insuficientes até que o novo espaço esteja apto a receber jogos, finais, eventos escolares e competições maiores. Isso não invalida o avanço atual, mas impõe uma obrigação à administração: não deixar o esporte local abandonado no meio da travessia.
Ou seja, enquanto o ginásio municipal não vem, será preciso continuar cuidando dos espaços já existentes, qualificando o que for possível, oferecendo condições minimamente dignas para atletas, dirigentes, arbitragem e público. Porque de nada adianta celebrar o futuro e esquecer o presente.
O que me parece mais correto, hoje, é adotar duas posturas ao mesmo tempo: reconhecer e cobrar.
Reconhecer que a Prefeitura, neste momento, está dando um passo objetivo numa pauta histórica da cidade. E cobrar para que esse passo não vire mais uma caminhada arrastada, dessas que em Canela levam dois anos para sair do papel e outros tantos para sair da boa vontade.
A cidade precisa desse ginásio. O esporte precisa desse ginásio. As escolas precisam desse ginásio. E a comunidade também.
Se vier como apontam os documentos, será um espaço moderno, amplo, acessível e apto a atender não apenas competições esportivas, mas também eventos culturais e comunitários. Os próprios estudos técnicos tratam o ginásio como obra de interesse público, pensada para fortalecer o desenvolvimento esportivo, comunitário e social do município.
É um sonho grande, sim.
Mas já passou da hora de Canela parar de sonhar pequeno quando o assunto é esporte.
Que se diga, portanto, o que precisa ser dito: parabéns à atual administração por começar. Agora, que também se diga o restante: começar era obrigação; terminar é que será mérito.