Li atentamente a coluna do nosso diretor, Chico Rocha. Ele também fez um vídeo aprofundando um pouco mais o assunto. Acredito muito no propósito editorial da Folha e, por isso, estou aqui há bastante tempo. Concordo que, ultimamente, vivemos a cultura do “quanto pior, mais rende” quando se trata de matérias, posts e especulações no mundo da comunicação. E isso não é de hoje. Por ter trabalhado 14 anos em um local que vendia jornais, sei bem quando eram vendidos mais exemplares dos veículos locais. Assassinatos, casos de corrupção, tragédias, brigas e afins faziam com que, desde cedo, as pessoas corressem atrás dos jornais impressos. Outros tempos? Talvez. Mas o ser humano é movido por uma curiosidade constante pela desgraça alheia. Você duvida? Basta ver quantos celulares estão apontados para uma casa pegando fogo ou para um veículo destruído em um poste.
Precisamos olhar para o recorte atual das redes sociais. Quem são os donos da informação hoje? Todos. Basta ter um celular, internet e uma rede social para gerar uma notícia. Se será bem escrita, se terá contexto ou se vai alcançar muita gente são outros quinhentos. Mas acontece. Hoje também soa hipócrita a frase “eu não me pauto por rede social”. Em algum momento, todo mundo se pauta por ela, e até monstrengos da comunicação já surgiram das redes do “tio Mark”, por exemplo.
O Facebook teve grande influência na eleição do prefeito Cléo Port em 2012. A questão do tornado, tão debatida e usada contra o então mandatário Constantino Orsolin, impulsionou um movimento de indignação que acabou com o favoritismo do candidato do MDB à época. Desde então, o uso das redes ganhou força. Muitas campanhas foram alavancadas por ali e a maioria das críticas da população também é feita por ali. O atual prefeito usa muito bem as redes e, muitas vezes, é alvo de protestos nelas. Dizemos que não nos pautamos por elas, mas estamos sempre de olho e acabamos, sim, sendo influenciados. Mesmo quando afirmamos que “são sempre as mesmas figurinhas carimbadas”. Nem sempre. Mas o fato é que Canela já era Canela antes das redes sociais e continuará sendo, para o bem ou para o mal.
Só que precisamos entender o que é Canela sendo Canela. Dos meus 46 anos, passei 43 aqui. E acredito que vou passar muitos mais, apesar do sonho de viver a terceira idade com os pés na areia, olhando para o mar. Mas isso é assunto para outro dia. O fato é que, em algum momento, Canela deixou de saber o que é ser Canela.
Hoje queremos ser reconhecidos, com toda justiça, como a Capital Nacional dos Parques Temáticos. Ótimo. Lá atrás, já quisemos mostrar que éramos a Paixão Natural de todos. Já fomos muito bons no trato com a madeira, já fomos referência no Teatro de Bonecos, já fomos a capital do disco de vinil e já tivemos destaque no esporte. Hoje parece que nossa identidade é composta de vários DNA’s e nenhum se firma. Aí muita gente compara com Gramado e esquece que temos exemplos na vizinhança que estão dando muito certo sem ficar o tempo todo olhando para o lado. Basta observar o que Nova Petrópolis e São Francisco de Paula vêm fazendo de forma consistente, com DNA próprio e entendimento dos valores que não podem ser esquecidos.
Quais são nossos valores atuais, herdados de décadas passadas ou até de tempos mais remotos? Sinceramente, fico em dúvida. Em meio a tantos embates políticos, ao crescimento populacional gigantesco e à falta de investimento, por décadas, em espaços que preservem nossa história e elevem a autoestima da população, reflito e tenho muito mais perguntas do que respostas. Qual é a história do trem? Quem trouxe o Festival de Bonecos para Canela? Qual era o propósito da Festa Nacional do Disco? O que aconteceu com o Pinheiro Grosso? Como chegar à nossa colônia que produz tantas maravilhas? Quem são os povos originários que habitavam Canela antes da chegada dos madeireiros? O que aconteceu com a Boneca Alice? O show do Kadett 89 do Carlos Cunha na Felisberto Soares realmente aconteceu? O que é, o que foi e o que será Canela daqui para frente?
Sigo com mais dúvidas do que certezas. E, acreditem, torço para que a pauta positiva se sobreponha à negativa. Mas, antes, preciso saber o que nossa cidade realmente é.