Canela,

14 de julho de 2026

Especial Dia do Trabalhador

DIA DO TRABALHADOR

ESPECIAL

O Sangue que move o motor: a herança das irmãs que dominam o volante em Canela

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Por trás do volante de um caminhão, existe mais do que força e técnica. Existe memória, herança e escolha.

Para além das celebrações tradicionais do Dia do Trabalhador, as ruas de Canela contam histórias de superação e dedicação. A força de trabalho do município ganha novos rostos com a presença crescente de mulheres em setores historicamente ocupados por homens. Pelas mãos de Miriane (46) e Paula (37), o volante de um caminhão não é apenas uma ferramenta de trabalho, é uma herança. As irmãs são guiadas por algo que começou muito antes da primeira habilitação: o exemplo do pai.

Filhas de caminhoneiro, passaram a infância explorando as estradas do Brasil. “A gente se criou viajando com o pai, conhecemos o Brasil todo junto com ele. O sangue puxa!”, conta Paula. A entrada na profissão não foi um acaso, mas um destino amadurecido com o tempo. Assim que atingiram a idade mínima para dirigir veículos de grande porte, seguiram o mesmo caminho do pai.

Miriane, a irmã mais velha, foi a primeira a assumir o volante. Com cerca de duas décadas de experiência, ela acumulou trajetos por estados como São Paulo, Paraná e Santa Catarina, transportando cargas pesadas e até perigosas, como ácido clorídrico. Paula seguiu o mesmo ritmo, construindo sua história rodando o país em veículos de carga. Embora hoje operem os caminhões da coleta seletiva em Canela, a trajetória das duas foi forjada no comando de carretas pesadas.

Foto: Arquivo Pessoal

A escolha pelo lar

Hoje, as irmãs trocaram as longas viagens pela rotina no transporte urbano, trabalham na coleta seletiva de Canela, dirigindo caminhões menores, mas com o mesmo orgulho. Embora tenham assumido o volante da coleta há pouco tempo, a presença de Miriane e Paula já se tornou peça-chave na engrenagem da cidade, elas trocaram as carretas pesadas por um serviço que exige compromisso diário com a comunidade local. A habilidade das irmãs na condução do caminhão é fundamental para manter o cronograma de limpeza e o funcionamento básico de Canela.

 A ideia de mudar de rota veio com a maturidade e o desejo de estar perto da família. Paula e Miriane explicam que a estrada é solitária e que, na função atual, seguem fazendo o que gostam, mas retornando para casa todos os dias. Paula ainda admite que, em alguns momentos, sente vontade de voltar e que a paixão pela estrada pode levá-la a reconsiderar um possível retorno no futuro.

Esse sentimento não pertence somente a elas; se antes o pai foi referência, hoje o legado continua. O filho de Miriane também seguiu a profissão, assim como primos e outros familiares. Para eles, o caminhão não é apenas uma ferramenta de trabalho, é a própria identidade familiar.

As dificuldades enfrentadas na profissão

Quando o assunto é trabalhar em um ambiente predominantemente masculino, o mais importante para elas é enfrentar os desafios de cabeça erguida. As irmãs relembram situações que viveram com colegas de trabalho ao longo da profissão e afirmam que, nesse ramo, é necessário se impor e não baixar a cabeça. No trânsito, elas apontam que, o preconceito nem sempre vem de onde se espera. As próprias mulheres são as que mais criticam ou competem, enquanto os homens, em geral, demonstram mais paciência. “As mulheres nem sempre são unidas. Quando estou manobrando o caminhão e alguém precisa esperar um pouco, quem costuma reclamar são outras mulheres; os homens, em geral, esperam”, afirma Paula.

Um novo olhar para a profissão

Neste Dia do Trabalhador, o pedido das irmãs é por valorização, respeito e empatia. Elas lembram que tudo o que consumimos, do alimento ao remédio, chega por meio de um motorista. “Hoje o caminhoneiro não é mais visto como o herói, como era na época do meu pai. As pessoas reclamam do caminhão estacionado, mas esquecem que enquanto elas dormem, tem alguém rodando para o país não parar”, reflete Paula.

Para as mulheres que sonham com a profissão, o recado é direto: coragem. “Muitas vezes não é fácil, a gente precisa lidar com muito preconceito. Mas, se você gosta da profissão, siga em frente; no final, vale a pena. Tudo o que vivi levo como aprendizado, tudo o que passei serviu para me fortalecer e não para me derrubar”, finaliza Miriane.