Canela,

17 de junho de 2026

Especial Dia do Trabalhador

DIA DO TRABALHADOR

ESPECIAL

Há 46 anos salvando vidas, Seu Luiz faz do trabalho uma missão em Canela

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Bombeiro em atividade mais antigo do Rio Grande do Sul, Luiz Carlos Schmitt, de 65 anos, segue na linha de frente e diz que só vai parar quando sentir que não pode mais ajudar

Quando o chamado chega, Luiz Carlos Schmitt ainda vai. Aos 65 anos, com 46 deles dedicados ao Corpo de Bombeiros, Seu Luiz, como é conhecido em Canela, continua na ativa com a mesma disposição de quem transformou o trabalho em missão de vida. Bombeiro em atividade mais antigo do Rio Grande do Sul, ele carrega uma história que se confunde com a própria evolução do serviço de emergência no município.

A trajetória começou no fim de 1979, nos tempos dos Bombeiros Voluntários de Canela. E começou, curiosamente, por causa do futebol. Luiz trabalhava em um hotel e costumava passar nos bombeiros, onde tinha um cunhado na corporação. Foi convidado para jogar bola com o grupo no campo do Colégio Marista Maria Imaculada. Como gostava de futebol, foi. Até o dia em que ouviu do comandante, o lendário Guilherme Zorzan, que os jogos eram restritos aos bombeiros. A resposta veio na hora. “Então, a partir de hoje eu sou bombeiro voluntário.”

Foto: Arquivo Pessoal

E foi assim mesmo. Entrou como voluntário em 1979 e permaneceu nessa condição até 1984. Depois, prestou concurso público pela Prefeitura de Canela e passou a atuar como bombeiro municipal, função que exerceu até 2006, quando o Estado assumiu o serviço. Desde então, seguiu trabalhando junto à corporação e atravessou diferentes fases da estrutura local, da época mais improvisada até a profissionalização que existe hoje.

Seu Luiz lembra de um tempo muito diferente do atual. No início, os bombeiros funcionavam em uma pequena sala ao lado da antiga Estação de Trem, onde hoje está a região da Rua Coberta. Muitas vezes, quando havia incêndio, era preciso buscar os bombeiros em casa. Os treinamentos também eram outros, bem distantes da realidade de hoje.

“A gente não tinha o recurso e os equipamentos de proteção individual que temos hoje. O nosso fardamento era uma calça jeans, um sapatão e uma camisa social. Tinha um capacete que, se tu olhasse pra cima, ele caía pra trás. E a gente ia assim mesmo”, recorda.

Foi nesse ambiente que ele aprendeu a profissão. Sem luxo, sem estrutura e sem espaço para hesitação. “Chegávamos na ocorrência e o comandante gritava: ‘sem medo, sem medo, vai, vai’. E tínhamos que ir. Eu aprendi a trabalhar sem medo, mas com muito respeito pelo fogo.”

Ao longo das décadas, Seu Luiz viu a profissão mudar completamente. A grande virada, na visão dele, veio em 30 de janeiro de 2006, quando o Estado assumiu e o serviço passou a ganhar novo padrão de estrutura, equipamentos e organização. Hoje, ele diz que a realidade é outra.

“De 2006 para cá, a gente foi crescendo e hoje está num patamar que eu posso dizer que é praticamente de primeiro mundo”, afirma.

Mesmo com toda essa modernização, o que mais o prende à profissão não é a tecnologia, mas o sentido humano do trabalho. Para ele, a maior satisfação continua sendo a gratidão de quem é atendido em um momento de dor, medo ou desespero.

“Eu trato as pessoas nas ocorrências conforme eu gostaria de ser tratado, de ser atendido”, resume.

Essa forma de enxergar a profissão ajuda a explicar um dos episódios mais marcantes de sua carreira. Foi em 13 de dezembro de 2000, quando ele estava de plantão no quartel. Um pai chegou desesperado com a filha engasgada com leite. A criança, já sem respirar e roxa, foi entregue nos braços do bombeiro. Seu Luiz conseguiu reverter a situação e salvar a menina. O nome dela é Cecília.

O desfecho daquela ocorrência foi ainda mais especial. Tempos depois, ele foi convidado para ser padrinho da criança.

“Hoje eu sou padrinho dessa menina. Isso pra mim não tem preço”, conta, emocionado.

A ligação com o Corpo de Bombeiros é tão profunda que ele admite ficar nervoso só de pensar na aposentadoria. Embora já tenha 65 anos, diz que ainda se sente apto para a função e que só pretende parar quando perceber que não consegue mais contribuir sem colocar a equipe em risco.

“Enquanto eu estiver trabalhando e não estiver prejudicando a minha equipe, eu tenho condições. A partir do momento que eu sentir que não estou mais dando conta do recado, aí chegou a hora de me aposentar.”

Além de ser o bombeiro em atividade mais antigo do Estado, título pelo qual já foi reconhecido pelo Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul, Seu Luiz também é hoje o terceiro servidor mais antigo em atividade no município de Canela. Mas há um detalhe que torna sua trajetória ainda mais singular. Ele passou a vida inteira no mesmo ofício, sempre no socorro, sempre na linha de frente.

No Dia do Trabalhador, a história de Luiz Carlos Schmitt mostra que existem profissões que ultrapassam o relógio, o cargo e o salário. Há trabalhos que se tornam identidade. No caso de Seu Luiz, ser bombeiro não foi apenas uma escolha feita por causa de um jogo de futebol. Foi o começo de uma vida inteira dedicada a proteger os outros. E é justamente isso que faz dele um personagem tão raro. Em um tempo de tanta pressa e tanta troca, ele seguiu. Com coragem, com humildade e com a mesma disposição de quem ainda acredita que ajudar alguém continua sendo a maior recompensa de todas.