Quem chega à Garagem 419, em Canela, muitas vezes se surpreende ao descobrir que quem entende de motores e conserto de veículos é uma mulher. Aos 27 anos, Paola de Souza é quem conduz atendimentos, orienta clientes e ajuda a comandar a oficina ao lado do marido, Paulo. No Dia do Trabalhador, a trajetória da canelense ganha destaque pela coragem de mudar de profissão e abrir espaço em um setor ainda marcado pela presença masculina.
Formada no Magistério e com pós-graduação em Contabilidade, Paola construiu a trajetória profissional longe das oficinas, atuando como professora na área da educação infantil. Com o passar do tempo, decidiu mudar de rumo e apostar na antiga paixão por carros e motores, transformando o interesse de anos em profissão.
Além de administrar a oficina, buscou qualificação técnica com cursos de injeção eletrônica, preparação de carros de rua e montagem de motores. Única mulher entre oito homens na linha de frente da empresa, ela se tornou exemplo de determinação e incentivo para outras mulheres que desejam ocupar espaços antes vistos como exclusivamente masculinos.

A “Virada de Chave”
A paixão de Paola pelo mundo dos carros vem de berço, herdada dos pais entusiastas de trilhas 4×4. Aos 20 anos, ela vendeu o próprio carro e móveis de casa para comprar um Jeep. Nas trilhas, acabou conhecendo o marido. Mas foi há cinco anos que a curiosidade profissional falou mais alto. “Eu disse para o meu marido que queria entrar dentro da oficina para ver como funcionava. Nunca imaginei que ia entrar tanto assim”, diz a mecânica.
Paola começou na parte de suspensão e, com o tempo, especializou-se em retífica de motores, um trabalho minucioso e técnico. No entanto, mesmo com todas as especializações, o caminho não foi isento de obstáculos. No setor, a resistência ainda é uma realidade bem, comum.
Os desafios da profissão
Mesmo sendo proprietária e especialista, Paola enfrenta diariamente o preconceito de pessoas que, ao entrarem na oficina, pedem para falar “com alguém que entenda”. “Muitas vezes entram em contato pelo WhatsApp e não sabem que sou mulher. No momento em que eu mando um áudio explicando o problema técnico, sinto que perco um pouco a credibilidade”, relata.
Nos cursos de montagem e dimensional de motores que realizou, Paola era a única mulher na sala, realidade que mostra como a presença feminina ainda é pequena no setor. Apesar disso, ela acredita que o cenário já mudou nos últimos anos e que hoje existe mais espaço para mulheres na área automotiva do que quando começou. Ainda assim, considera que o caminho segue desafiador. Para ela, mulheres que ingressam em áreas dominadas por homens precisam provar constantemente sua capacidade. Mesmo assim, reforça que não se pode desistir.
Dentro do ambiente de trabalho, para combater esse cenário, ela adotou uma estratégia clara: a recepção da Garagem 419 é composta exclusivamente por mulheres. “Tentamos tirar o óbvio de ser só homem. Queremos englobar mais o público feminino”, explica.
Educar para Empoderar
A experiência na educação nunca deixou de fazer parte da trajetória de Paola. Ao perceber que muitas clientes chegavam à oficina inseguras, sem compreender termos básicos da mecânica e com receio de serem enganadas, ela decidiu transformar conhecimento em orientação prática. No dia 23 de maio, realizará o primeiro workshop voltado exclusivamente para mulheres.
A proposta não é formar mecânicas profissionais, mas oferecer autonomia no dia a dia. Entre os temas abordados estarão identificação de luzes do painel, verificação do nível de óleo e noções básicas para que as participantes entendam melhor o funcionamento do veículo e saibam se posicionar diante de um atendimento.
O Significado do Dia do Trabalhador
Neste 1º de maio, Paola comemora mais do que uma data simbólica. Celebra uma conquista pessoal. Se antes tinha receio de dizer que trabalhava em oficina mecânica, hoje sente orgulho de ocupar esse espaço e representar tantas outras mulheres que buscam reconhecimento na profissão “Hoje, para mim, o Dia do Trabalhador é uma conquista. O fato de poder comemorar sendo uma trabalhadora dentro de uma oficina mecânica, algo que lá atrás eu tinha receio de dizer, é minha maior vitória.”
Paola também deixa uma mensagem de incentivo para outras mulheres que desejam ingressar no setor. “A gente não pode desistir. Oportunidade tem, é uma área muito boa e muito nobre. Quando a mulher entra em um ramo dominado por homens, muitas vezes precisa provar 100 vezes mais de que é capaz. A gente sabe que dá conta, por isso não pode deixar que comentário, brincadeira ou falta de respeito nos coloquem para trás. Tem que seguir em frente e manter o foco”, finaliza.
