Entre pescarias e visitas, como é a relação de Roger Ibañez com a cidade e a história da família Bernardo da Silva no esporte canelense
O Brasil e o mundo acompanhavam atentamente o anúncio dos convocados para vestir a camisa da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2026. Mas, em uma casa, em uma pescaria interrompida por ligações e em diversos grupos de família espalhados por Canela, a expectativa era ainda mais especial. No fim da fria tarde desta segunda-feira (18), por volta das 18h15, veio a confirmação: Roger Ibañez da Silva estava oficialmente convocado para defender o Brasil no Mundial.
Roger para a família. Ibañez para o mundo do futebol
Nascido em Canela, o zagueiro viveu os primeiros anos de vida na Rua Campo da Esperança, no Bairro São José, região tradicionalmente ligada ao futebol de várzea e ao esporte comunitário da cidade. Foi ali que começou a dar os primeiros passos no futebol e construiu os laços familiares e afetivos que mantém até hoje.
A convocação do defensor do Al-Ahli é motivo de orgulho para toda a comunidade canelense e representa também inspiração para inúmeros jovens que sonham em seguir carreira no esporte.
Familiares ouvidos pela reportagem da Folha relatam que, apesar da projeção internacional, Roger nunca perdeu a simplicidade e o vínculo com suas origens. “O mérito é todo dele e dos pais, que sempre incentivaram. Ele é iluminado”, resumiu um primo da família.

Uma família com história no esporte canelense
A ligação de Ibañez com o futebol vai muito além do talento individual. A família Bernardo da Silva possui uma trajetória histórica nos campos e quadras de Canela.
Os irmãos Amauri, Adauri (Nenê), Leoni (Batata), Amarildo (Neguinho), Roseli (Gadeia), Jair (Konuma) e Rogério (Geco) — pai de Roger — fizeram parte de diferentes equipes tradicionais do futebol canelense, especialmente do Esperança, time praticamente vizinho da residência da família.
Além do Esperança, os irmãos também defenderam equipes como Serrano, São José, MAC, Bom Sucesso, Madecon, Boleia e Forrageira, entre outras. Alguns chegaram inclusive a despertar interesse de clubes como Grêmio, Internacional e Juventude.
“Contar a história da família ajuda as pessoas a entenderem as raízes do Roger. Muita gente sabe que ele é canelense, mas não conhece essa ligação forte da família com o esporte”, relatou outro familiar.
Segundo os próprios parentes, Rogério “Geco”, pai do atleta, era considerado um dos jogadores mais talentosos entre os irmãos.
Foi nesse ambiente familiar, cercado por futebol, competições de bairro, amizades e convivência esportiva, que Roger cresceu até os sete anos de idade.


A mudança para o litoral e o sonho profissional
Ainda criança, Roger deixou Canela após o pai receber uma proposta para trabalhar no ramo moveleiro no litoral norte gaúcho. A família então se mudou para Tramandaí, cidade onde o futuro zagueiro começou a desenvolver sua trajetória nas categorias de base.
Mesmo distante, Canela jamais deixou de fazer parte da rotina da família.
Familiares relatam que Roger retorna com frequência à cidade natal, principalmente para rever os avós, tios e primos. Apaixonado por pescaria, ele costuma aproveitar as férias e períodos de folga para encontros em família, especialmente em barragens e rios da região.
“Pra nós ele segue sendo apenas o Roger”, contou um primo. “Quanto mais ele cresce profissionalmente, mais difíceis ficam estes momentos, mas ele sempre foi muito humilde e muito ligado à família e à Canela.”

“Era bola o dia inteiro”
Os relatos sobre a infância do jogador ajudam a explicar o sucesso alcançado nos gramados internacionais.
“Era bola o dia inteiro. A vida dele sempre foi futebol”, relembra um familiar. Segundo os parentes, Roger teve apoio constante dos pais desde cedo, com incentivo para viagens, treinamentos e campeonatos.
Ainda adolescente, começou a chamar atenção em competições de base no litoral gaúcho, até ser descoberto pelo PRS Futebol Clube. Pouco tempo depois, já atuava pelo Sergipe em competições nacionais, ainda muito jovem.
A ascensão foi rápida.
Após chegar ao Fluminense, Roger acabou sendo reposicionado como zagueiro pelo técnico Abel Braga. Foi também naquele período que surgiu o nome profissional “Ibañez”, utilizando o sobrenome materno de origem uruguaia.
Segundo a família, o uso do sobrenome acabou sendo incorporado pelo clube como estratégia de marketing e identidade profissional. O nome ficou conhecido mundialmente e acompanha o atleta até hoje.
A notícia revelada numa pescaria
Uma das histórias mais marcantes da trajetória foi revelada por um primo do jogador.
Segundo ele, Roger contou em primeira mão sobre sua transferência para a Atalanta, da Itália, durante uma pescaria em família na barragem da Divisa, em Canela.
“Ele me chamou de canto e disse que estava indo para a Itália, mas pediu segredo porque ainda não tinha sido anunciado. Dois dias depois ele já estava apresentado na Atalanta”, recordou.
Depois da passagem pelo clube italiano, Ibañez ganhou projeção internacional na Roma, onde conquistou a UEFA Conference League, antes de seguir para o futebol saudita.

Ligação permanente com Canela
Mesmo atuando no exterior, o jogador segue próximo da comunidade canelense.
Segundo familiares, Roger frequentemente envia camisas autografadas para rifas, ações esportivas e projetos ligados ao futebol local. O pai do atleta, Rogério “Geco”, também mantém visitas constantes à cidade.
No último final de semana, inclusive, ele esteve em Canela para um tradicional encontro familiar de cartas e confraternização.
Roger também nunca escondeu sua ligação com o Grêmio. Torcedor declarado do clube gaúcho, o zagueiro já revelou em entrevistas o sonho de encerrar a carreira vestindo a camisa tricolor.
Apresentação da Seleção e estreia na Copa

Atualmente defendendo o Al-Ahli, da Arábia Saudita, Roger Ibañez deve se apresentar à Seleção Brasileira no próximo dia 27 de maio, na Granja Comary, em Teresópolis (RJ), para o início da preparação visando a Copa do Mundo de 2026.
Antes da estreia oficial no Mundial, o Brasil ainda fará amistosos preparatórios:
- 31 de maio — Brasil x Panamá — Maracanã (RJ), às 18h30
- 6 de junho — Brasil x Egito — Cleveland (EUA)
A estreia brasileira na Copa está marcada para o dia 13 de junho, contra Marrocos, em Nova Jersey, nos Estados Unidos.
E enquanto o mundo verá Ibañez defendendo a camisa da Seleção Brasileira, em Canela muitos ainda continuarão enxergando apenas o Roger. O guri do Campo da Esperança que levou consigo as raízes da cidade até o maior palco do futebol mundial.