Quando um atleta como Roger Ibañez é convocado para disputar uma Copa do Mundo, muita gente olha apenas para o resultado final. A camisa, o estádio, a seleção, a fotografia pronta.
Mas existe uma cidade inteira por trás disso.
No caso de Ibañez, existe a família com forte identificação comunitária. Existe a tradição ligada ao futebol, o Campo da Esperança, os campeonatos locais, os amigos, os treinadores, os ginásios e os finais de semana de bola rolando.
Existe, sobretudo, uma comunidade esportiva que, de uma forma ou de outra, ajuda a formar um atleta.
E Ibañez, nosso orgulho selecionável, é apenas um exemplo.
Seguidamente, atletas canelenses das artes marciais sobem nos lugares mais altos do pódio levando o nome da cidade. Corredores disputam rústicas em diversos municípios. A natação também produz destaques.
Nomes como Anthoni, do Inter, Paulo Josué e o jovem Bernardo Boeira Hanel, que hoje está nos Estados Unidos como estudante-atleta, mostram que existe talento esportivo sendo formado aqui.
Isso sem falar na grande quantidade de gurizada da base, no futebol e no vôlei, jogando em equipes fora de Canela em busca da profissionalização.
E certamente este colunista cometerá injustiças deixando alguém de fora desta lista. O que, convenhamos, é um ótimo problema para uma cidade ter.
Esportes de raquete também vivem um forte crescimento na cidade. No coletivo, o cenário igualmente chama atenção.
Em 2026, equipes como o Olé disputam o Estadual Sub-17 de futsal. O Elite segue representando Canela em competições estaduais. Enquanto isso, os campeonatos municipais crescem ano após ano, tanto em número de participantes quanto em equipes.
O retorno do Campeonato Municipal de Futebol de Campo com 21 equipes é simbólico. Não existe competição desse tamanho sem uma comunidade que respira esporte.
E aqui talvez esteja o principal ponto desta coluna: Canela ainda não entendeu totalmente a força que o esporte possui dentro da cidade.
Hoje, cerca de quatro mil pessoas disputam diretamente competições organizadas pelo DMEL. Se somarmos familiares, torcedores, amigos e toda a cadeia econômica ligada ao esporte, estamos falando facilmente de algo próximo a 20 mil pessoas envolvidas direta ou indiretamente.
Nenhuma cidade mobiliza tanta gente em torno do esporte por acaso.
O esporte movimenta escolinhas, projetos sociais, lojas de material esportivo, confecção de uniformes, academias, profissionais de educação física, fisioterapia, recuperação física, arbitragem, alimentação, turismo e pertencimento comunitário.
Mas ainda tem atleta que troca título de eleitor e cartão do SUS para jogar em outra cidade com mais estrutura.
É preciso entender e reconhecer que o esporte deixou de ser apenas lazer faz tempo.
Ele é ferramenta de saúde pública.
É educação.
É formação de cidadania.
É economia.
Claro que o trabalho atual do DMEL ajuda — e ajuda muito. A retomada das competições, o crescimento das modalidades e a reorganização do calendário mostram isso. Mas ainda estamos longe da estrutura ideal.
O novo ginásio estar em licitação é importante. Fundamental, aliás.
Mas o esporte não pode continuar relegado a estruturas periféricas, tanto fisicamente quanto dentro das prioridades da cidade.
O esporte precisa ir para o centro das políticas públicas. E também para o centro da cidade.
Desde sempre, algo muito forte envolvendo o esporte acontece em Canela. Está no nosso DNA.
Talento individual ajuda, claro.
Mas comunidade ajuda também.
Talvez a maior prova da força de Canela não esteja apenas nos seus parques, nos seus eventos ou no turismo.
Talvez ela esteja justamente na capacidade que essa cidade ainda tem de formar gente em todas as áreas.
Falta apenas o poder público parar de tratar o esporte como secundário.