Nascida no Suriname e vivendo sob guarda temporária, criança frequentava regularmente a escola e havia procurado atendimento médico dois dias antes de morrer
Melry Mayarisa de Souza Galhardo não era uma ocorrência policial. Era uma criança de 10 anos que estava vivendo em Canela, frequentando regularmente a escola, convivendo com colegas e circulando pela cidade — até que uma violência até então escondida se tornou fatal.
Nascida em 30 de dezembro de 2015, na República do Suriname, mas portadora de documentos brasileiros, Melry vivia em Canela desde o final de 2025. Ela estava sob a guarda temporária de um casal que residia no município desde o período da pandemia.
Na manhã de quinta-feira, dia 18 de junho, a menina foi levada em estado gravíssimo ao Hospital de Caridade de Canela. A equipe médica realizou procedimentos de reanimação e conseguiu recuperar sua consciência por alguns instantes, mas Melry não resistiu e morreu por volta das 11h.
O caso levou à prisão em flagrante do casal responsável pela criança. A Polícia Civil enquadrou inicialmente os dois investigados pelo crime de tortura com resultado morte.
Os nomes dos suspeitos não serão divulgados pela Folha neste momento, enquanto o inquérito está em fase inicial e protegido por sigilo. O homem tem 58 anos e é policial civil aposentado do Estado do Pará. A mulher é técnica de enfermagem.
A audiência de custódia dos investigados está prevista para as 16h desta sexta-feira (19), quando a Justiça deverá decidir se as prisões em flagrante serão convertidas em preventivas.
A revelação dos detalhes do caso interrompeu a rotina da semana em Canela. Nos últimos dois dias, a palavra “brutalidade” passou a ecoar entre profissionais da rede de proteção, profissionais de saúde, forças de segurança, nas conversas de vizinhos, comércios e redes sociais da cidade, refletindo o sentimento de uma comunidade profundamente chocada com a violência que se desenrolou sem alarde em um condomínio residencial.
O relato após a reanimação
Segundo informações confirmadas durante a investigação, Melry chegou ao hospital inconsciente. Após ser reanimada, recuperou a consciência por um curto período e conseguiu falar com profissionais que participavam do atendimento.
Nesse momento, a menina teria atribuído as agressões à mulher que detinha sua guarda. Melry também teria pedido pela presença do tutor e solicitado que a tutora não entrasse na sala.
O relato não foi registrado diretamente no prontuário médico, mas foi repassado aos policiais por profissionais que acompanharam o atendimento. Essas testemunhas estão identificadas e deverão prestar informações formalmente no inquérito.
A Polícia Civil também confirmou a existência de diversas lesões e marcas pelo corpo da criança, incluindo indícios de agressões ocorridas em momentos diferentes.
A causa exata da morte ainda depende do laudo da necropsia. Também não há, até o momento, confirmação oficial sobre lesões internas específicas ou eventual violência sexual. Essas hipóteses somente poderão ser tratadas como fatos após os resultados periciais.
Atendimento dois dias antes
Dois dias antes da morte, na terça-feira (16), Melry havia sido levada ao Hospital de Caridade de Canela com queixas de náuseas e dores abdominais.
As informações reunidas até o momento indicam que os sintomas apresentados naquele atendimento não exigiram, dentro da avaliação clínica realizada, um exame corporal completo da paciente. Também não há, até agora, elemento que demonstre que os profissionais tiveram acesso a marcas ou sinais claros de violência naquele momento.
A passagem anterior pelo hospital se torna relevante para a cronologia do caso, mas, com as informações disponíveis até agora, reforça a conduta adequada da unidade de saúde.
Mais de 96% de frequência escolar
Melry era aluna da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Dante Bertolucci, no bairro São Luiz.
A menina tinha frequência escolar superior a 96% e havia comparecido às aulas ainda na semana de sua morte. Pelo que foi apurado pela Folha, não existiam faltas recorrentes, afastamento prolongado ou alteração evidente que tivesse provocado uma comunicação à rede de proteção.
Também não há, até o momento, informação de que professores ou funcionários tenham percebido marcas de violência. Parte das lesões poderia estar localizada em regiões cobertas pelas roupas utilizadas durante o inverno canelense.
Após a morte, a escola publicou uma nota de pesar lamentando o falecimento da aluna.
“Sua curta passagem por nossa escola deixará lembranças, aprendizados e momentos que permanecerão em nossos corações”, afirmou a instituição.
A escola não é, neste momento, apontada como investigada ou responsável por qualquer omissão. O que ainda precisa ser esclarecido é como uma criança submetida a agressões continuadas conseguiu manter uma rotina escolar aparentemente regular sem que a violência fosse percebida.
Uma guarda concedida longe de Canela
A mãe biológica de Melry mantém vínculos com o Suriname e com o Estado do Pará. O nome do pai não consta nas informações obtidas até agora.
Não há notícia de processo de adoção. O casal preso possuía uma guarda temporária da menina, concedida antes de sua mudança para Canela.
A mãe sabia onde a filha estava e mantinha contato com Melry e com a mulher responsável por ela. Ainda não está oficialmente esclarecido, porém, qual juízo concedeu a guarda, quais condições foram fixadas e qual órgão deveria acompanhar a situação da criança após a mudança para o Rio Grande do Sul.
O Ministério Público de Canela não havia atuado anteriormente no caso. As informações preliminares indicam que a guarda teria tramitado fora de Canela.
A origem e a execução dessa guarda passam a ser pontos fundamentais da apuração. A Folha busca esclarecer se a mudança de Estado foi oficialmente comunicada, se havia obrigação de acompanhamento e como deveria funcionar a troca de informações entre os órgãos responsáveis.
Sem denúncias anteriores
Até o momento, não foram localizados registros anteriores de denúncias envolvendo Melry em Canela.
A família não era acompanhada pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social, o Creas, nem havia procurado a rede municipal por situação de vulnerabilidade. O casal aparentava possuir estabilidade financeira e mantinha uma vida considerada estruturada.
Esses elementos não encerram a discussão sobre a rede de proteção. Ao contrário: mostram que a violência contra crianças nem sempre acontece em ambientes já identificados pelos serviços sociais como vulneráveis.
No caso de Melry, a ausência de denúncias, a frequência regular na escola e a aparência de normalidade familiar podem ter funcionado como uma espécie de barreira, mantendo a violência restrita ao ambiente doméstico.
Filha do casal foi acolhida
Uma menina de 6 anos, filha biológica do casal preso, foi retirada do convívio familiar e acolhida pela rede de proteção de Canela. Ela foi encaminhada ao Abrigo Acolher e deverá passar por avaliação psicológica e depoimento especial.
Até o momento, não há confirmação de que a criança apresentasse lesões ou tenha sido vítima de maus-tratos. A avaliação busca compreender o ambiente doméstico, verificar se ela também estava exposta a situações de violência e proteger a menina durante o andamento das investigações.
Por envolver outra criança, a Folha não divulgará qualquer informação que possa permitir sua identificação, obedecendo a legislação em vigor e o ECA – Estatuto da Criança e Adolescente.
Investigação analisa celulares e mensagens
A Polícia Civil trabalha para reconstruir a cronologia da violência sofrida por Melry, mas por envolver menores, não há manifestações públicas.
Celulares, mensagens e outros registros estão sendo analisados. A investigação também apura se outras pessoas tinham conhecimento das agressões ou participaram, de alguma forma, dos fatos.
Os elementos reunidos até agora indicam a possibilidade de agressões continuadas. A definição da responsabilidade individual de cada integrante do casal, porém, ainda dependerá do conjunto da investigação.
Embora Melry tenha atribuído as agressões à tutora, o tutor também foi preso em flagrante por tortura com resultado morte. Seu papel específico ainda deverá ser esclarecido pela Polícia Civil.
O enquadramento criminal também poderá sofrer alterações após o laudo de necropsia e o avanço das diligências.
Uma menina entre países e Estados
Melry nasceu no Suriname, possuía documentação brasileira, tinha vínculos familiares no Pará e foi levada para viver sob guarda temporária em Canela, a milhares de quilômetros da mãe.
Essa trajetória acrescenta ao caso uma dimensão de desenraizamento e vulnerabilidade.
Trata-se de uma menina parda, estrangeira de nascimento e afastada da família biológica, que chegou recentemente a uma nova cidade, passou a estudar em uma nova escola e dependia integralmente do casal que possuía sua guarda.
Ainda não existem elementos para afirmar que sua origem, sua cor ou sua nacionalidade tenham contribuído diretamente para que a violência não fosse percebida. Mas esses fatores fazem parte da história de Melry e não podem ser ignorados na investigação sobre quem deveria protegê-la.
O corpo e a despedida
O corpo de Melry foi encaminhado ao Departamento Médico-Legal de Porto Alegre, onde passou por necropsia, e já foi liberado.
A definição sobre o funeral, porém, envolve uma situação incomum. Os responsáveis legais que possuíam a guarda da criança estão presos, enquanto a mãe biológica está distante e não possui, até o momento, condições definidas para assumir imediatamente os procedimentos.
O Município de Canela ofereceu a realização de um funeral social. Ainda assim, a destinação do corpo depende de decisões da família e da regularização dos atos necessários.
A situação acompanha o drama de uma criança que morreu longe da mãe e cuja despedida ainda depende da solução de questões familiares, jurídicas e financeiras.
Como a violência permaneceu invisível?
Os fatos conhecidos até agora não permitem afirmar que escola, hospital, Conselho Tutelar ou assistência social tenham recebido denúncias e decidido ignorá-las.
Também não permitem encerrar o assunto dizendo simplesmente que ninguém poderia ter percebido.
Melry frequentava regularmente a escola. Procurou atendimento médico dois dias antes de morrer. Vivia sob uma guarda concedida judicialmente. Estava inserida na comunidade de Canela.
Ainda assim, chegou ao hospital com diversas marcas pelo corpo e em estado tão grave que morreu poucas horas depois.
A pergunta que passa a orientar a investigação da Folha não é apenas quem praticou ou permitiu as agressões.
É também como uma violência dessa dimensão permaneceu invisível até se tornar fatal.
Nos próximos dias, a Folha irá buscar respostas junto ao Ministério Público e aos órgãos da rede de proteção.
A reportagem também acompanhará a audiência de custódia, os laudos periciais, o indiciamento e a eventual denúncia contra os investigados.
Até o fechamento desta edição, a reportagem não localizou a defesa ou os representantes legais dos investigados. O espaço segue aberto para manifestação.