Até nas masmorras mais escuras há tempo para compreender como aquelas paredes foram erguidas, quem as construiu e por que tantos acabaram presos nelas — muitas vezes não por escolha própria, mas pela visão míope de quem sempre enxergou o esporte como um porão frio, e não como ferramenta de transformação social.
Recentemente, o ex-vereador, ex-secretário e candidato derrotado na última eleição municipal, Marcelo Savi, deixou o MDB e ingressou no PSD ao aceitar integrar o governo Gilberto Cezar, assumindo o Departamento Municipal de Esporte e Lazer (DMEL).
A decisão gerou reação pública do vereador Cabo Antônio (MDB). Não entro no mérito da mágoa política — ela é velha conhecida do eleitor e pouco agrega ao debate público. O que chama atenção é o arremate da manifestação: segundo o vereador, Savi teria “escolhido ser jogado nos porões da masmorra do esporte canelense”.
Aqui está o ponto.
É lamentável que um vereador eleito, remunerado com o imposto do cidadão, trate o órgão responsável por fomentar o esporte no município como uma masmorra. Pior ainda: trate sua sede, na Celulose, como símbolo de decadência. Não por uma crítica estrutural séria, mas por puro desdém político.
Enquanto isso, logo ali, Gramado divulga números que deveriam constranger qualquer gestor que ainda pense pequeno. O turismo esportivo movimentou cerca de R$ 80 milhões, envolveu aproximadamente 20 mil pessoas e terá, ao longo deste ano, mais de 80 eventos esportivos. Nada disso aconteceu por acaso. Gramado entendeu, faz tempo, que esporte não é apenas “dar espaço para um bando de chutadores de bola”.
Esporte é política pública de base.
É educação.
É formação de cidadania.
É saúde.
É economia.
A estrutura que atende o morador é a mesma que movimenta o turismo esportivo. Quadra, campo, ginásio, calendário, logística e gestão. Não existe milagre. Existe decisão.
Talvez as paredes frias e úmidas dessas supostas masmorras ajudem a lembrar um dado incômodo: desde o ano 2000, apenas três partidos governaram Canela — PDT, PP e MDB — sendo o MDB o que mais tempo permaneceu no poder. Coincidência ou não, é também o período em que o esporte canelense entrou em franca decadência. Talvez porque, para alguns, o esporte sempre tenha sido visto exatamente assim: um porão esquecido, e não uma prioridade estratégica.
Enquanto vereador, pago com o dinheiro do povo, se ocupa em defender partido e distribuir rótulos, Canela sedia, nesta semana, um dos maiores eventos de base do Brasil: a Iberleague Summer Edition. Dois momentos, seis categorias e uma experiência que une futebol de alto nível ao charme da serra. Tudo isso acontecendo no Parque do SESI, sem qualquer apoio do poder público, mas lotando pousadas, restaurantes e movimentando a economia local.
A realidade segue andando, com ou sem autorização de quem insiste em enxergar masmorras onde há potencial.
Que comunidade, esportistas e poder público passem a tratar o esporte em Canela como ele deve ser tratado.
E que as verdadeiras masmorras passem a encarcerar apenas as velhas práticas partidárias, as picuinhas estéreis e as visões atrasadas que em nada agregam à cidade.
O resto é barulho de chave velha tentando trancar uma porta que já está aberta — e que não vai voltar a ser trancada.
Enfim, talvez eu esteja errado, pois, eu mesmo, de masmorra não entendo nada.