Recordar fatos, lugares e personagens de Canela é algo que faço com frequência, e sempre recebo contribuições e carinho dos leitores. Revisitar o passado da cidade é saudável e necessário. A coluna também cumpre esse papel: resgatar memórias, reconhecer trajetórias e registrar momentos que marcaram diferentes épocas.
No entanto, é preciso reconhecer que o passado, por mais afetivo que seja, permanece sendo passado. Esse exercício de sinceridade vale para todos nós. Quando menciono restaurantes, por exemplo, muitas vezes gostaria de reviver sabores e experiências das décadas de 1980 e 1990. Mas, diante das normas sanitárias, fiscais, administrativas e de gestão atuais, dificilmente seria possível reproduzir aquele modelo. O ambiente de negócios mudou. Hoje, sem planejamento, estrutura, tecnologia e capacidade de investimento, a tendência é o fracasso. A ideia romântica de “vontade e pouco dinheiro” já não se sustenta — especialmente em uma região com custos elevados e exigências rigorosas.
Na minha experiência empreendedora, aluguei um ponto considerado histórico por muitos. O proprietário relutava em locar para alguém do ramo de alimentação e bebidas, acreditando que qualquer novo negócio repetiria o sucesso que o local teve nos anos 1990 e 2000. A realidade atual, porém, inviabilizaria aquele modelo. Em poucos meses, qualquer tentativa semelhante enfrentaria barreiras legais, estruturais e financeiras. São outros tempos, com novas exigências e um mercado completamente diferente. Ainda assim, o ponto serviu bem ao restaurante que ali funcionou posteriormente, deixando também sua contribuição.
Ao revisitar minha juventude, percebo que muitos dos nossos antigos desejos já não dialogam com as novas gerações. Para nós, completar 18 anos significava conquistar a carteira de motorista, entrar em bares e alcançar certa autonomia. Carro e casa própria eram símbolos de sucesso. Trocar de emprego só fazia sentido diante de algo muito seguro.
Converse com um jovem hoje. A reação será distante. As prioridades mudaram. A geração atual pensa de forma distinta — e a próxima pensará diferente da atual. São ciclos naturais de transformação. Lembro de casas noturnas como Danceteria Casanova, Bill Bar e Estação Z. Se reabrissem hoje, teriam êxito? É improvável. O comportamento social mudou, assim como a forma de consumir lazer. E, nesse ponto, acredito que a evolução é positiva. A galera bebe menos, dorme melhor, busca mais segurança e tende a socializar de outras formas.
Ao observar a política local, porém a evolução inexiste. Assisti à última sessão da Câmara e notei cobranças do presidente Felipe Caputo sobre secretários que, segundo ele, não estariam respondendo às demandas encaminhadas. Outros vereadores, como Alberi Dias e Cabo Antonio, manifestaram preocupações semelhantes. Recordei sessões das décadas de 1990 e 2000. Os nomes mudaram, mas a dinâmica permanece semelhante.
O padrão se repete: eleitores cobram vereadores por problemas individuais; vereadores pressionam secretarias por soluções; secretários precisam responder simultaneamente a demandas de 11 vereadores, da população e do Executivo. A engrenagem se mantém, administração após administração.
Não sei exatamente quais secretarias foram alvo das queixas na sessão, mas é razoável supor que áreas como Educação, Saúde, Meio Ambiente, Segurança, Trânsito e Obras estejam entre as mais demandadas. A questão central é: quando esse modelo vai evoluir? Quando teremos mais entrega, menos politização do cotidiano e uma visão mais estratégica da gestão pública?
Alguém pode interpretar isso como crítica a vereadores ou secretários. Não é. Trata-se de uma reflexão sobre a forma como votamos e sobre o tipo de expectativa que depositamos nos cargos legislativos. Os vereadores agem assim porque são pressionados por eleitores que ainda reproduzem a lógica dos anos 1990. E é justamente essa lógica que mantém figuras tradicionais ocupando espaço central na política local.
Para ilustrar, basta imaginar um cenário possível para daqui a dois anos: uma eleição envolvendo nomes como Cleo Port, Constantino Orsolin e o atual prefeito, Gilberto Cézar. Renovação ou mais do mesmo? Cada leitor terá sua própria resposta. Eu tenho a minha e é bem óbvia!