Canela,

4 de junho de 2026

Cabelo

OPINIÃO FORTI

Márcio Diehl Forti

Bacana ou Sacana?

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São duas palavras diferenciadas por apenas uma letra. Basta usar um “B” ou um “S” e o contexto muda bastante. A palavra “bacana” tem um significado clássico se consultarmos um dicionário tradicional: é um adjetivo de dois gêneros, de uso coloquial no Brasil, funcionando como uma “palavra-ônibus” para indicar algo ou alguém positivo, agradável, legal, bom, bonito ou simpático. Pode descrever pessoas (honestas, simpáticas) ou coisas (divertidas, interessantes), sendo sinônimo de maneiro, bárbaro ou excelente, segundo o Google. Já a palavra “sacana” segue por outros caminhos: “uma pessoa sem caráter; quem se aproveita de outra pessoa para tirar vantagens e benefícios em favor de si próprio; finório, espertalhão, canalha, patife. Quem tem comportamento libertino; devasso. Aquele que é debochado ou gosta de zoar com a cara dos outros; brincalhão, idiota.”

Existe uma linha tênue entre o cidadão sacana e o cidadão bacana. Mas talvez o erro esteja justamente em achar que essa linha separa dois mundos distintos. Na prática, ela atravessa as mesmas pessoas. E, se quiser uma boa lente para enxergar isso, basta lembrar de Tom & Jerry. Quem nasceu e viveu os anos 80 e 90 cresceu assistindo a desenhos que traçavam fronteiras ambíguas entre quem a gente torce no final da história. Pica-Pau, Pernalonga, Tom & Jerry, Corrida Maluca, Zé Buscapé e tantos outros atiçavam pensamentos indecorosos nas crianças. Eu mesmo torcia para o Zeca Urubu cozinhar o Pica-Pau às vezes. Era um mundo um pouco diferente aquele dos anos 80.

Mas vamos falar sobre Tom & Jerry. À primeira vista, parece simples: o sacana é o Tom, sempre armando confusão, barulhento, insistente, quase caricato na própria falta de noção. O bacana seria o Jerry, leve, esperto, ágil, aquele que “só se defende”. Só que essa leitura dura até você prestar mais atenção, ainda mais se trouxermos para a nossa realidade atual.

O cidadão sacana estilo Tom é fácil de identificar. Ele ocupa duas vagas, fura fila, fala alto, acha que regra é sugestão. É o caos explícito, quase honesto na própria inconveniência. Você vê vindo de longe, dá até tempo de atravessar a rua.

Já o suposto cidadão bacana merece uma segunda olhada.
O Jerry não é apenas vítima. Muitas vezes, ele começa o jogo. Cutuca, provoca, testa limites e faz tudo com aquela cara de quem “não fez nada”. Domina a arte de parecer correto enquanto empurra o outro para o erro. Quando o Tom explode, pronto: narrativa definida, vilão escolhido, plateia convencida e espetáculo garantido.

E aí mora o ponto incômodo: tem muita gente que se vende como bacana, mas é apenas mais sofisticada na própria sacanagem.

Os nossos “Jerrys” da vida real não estacionam em duas vagas; eles tentam um jeitinho melhor explicado. Não furam fila descaradamente; “dão uma perguntadinha” para tentar se encaixar no que lhes convém. Não pisam nos outros de forma óbvia; conduzem a situação para que pareça inevitável. E, claro, sempre com um sorriso educado, voz mansa e, às vezes, um linguajar rebuscado que desarma qualquer suspeita.

Enquanto isso, o “Tom” segue sendo julgado, às vezes com razão, às vezes apenas por ser mais transparente na bagunça que faz. O cidadão bacana de verdade, aquele raro, não é nem Tom nem Jerry. Ele não precisa armar plano, nem provocar reação, nem vencer no detalhe. Ele devolve o carrinho do mercado sem plateia e sem estratégia por trás. Não joga o jogo da vantagem, nem a escancarada nem a disfarçada.

Porque, no fim, a diferença real não está entre parecer bom ou parecer ruim. Está entre precisar vencer o tempo todo ou simplesmente não transformar a convivência em um episódio eterno de perseguição.

Quando me questiono se, nos dias atuais, somos mais Toms ou mais Jerrys, penso nos animais que eles representam. Minhas gatas são leais, geniosas e às vezes irritantes, mas não são desonestas. Um rato, ao final de tudo, segue sendo um rato. Anda desviando, prefere os bueiros da vida e aparece geralmente quando não tem ninguém por perto para se aproveitar das coisas alheias. Agora entendo por que eu sempre torcia pelo Tom quando passava o desenho no SBT.

E talvez essa seja a maior ironia: no desenho, a gente ri do caos porque ele recomeça no próximo episódio. Na vida real, conviver com muitos Toms é cansativo, mas viver cercado de Jerrys bem articulados pode ser ainda mais perigoso. Afinal, do sacana explícito você se protege. Do bacana estratégico, você só percebe quando já entrou na armadilha.