Dizem que o destino tem formas curiosas de nos guiar. Para a nutricionista carioca Elisa, de 42 anos, o chamado veio através de uma viagem a Canela, há quatro anos. Encantada com a tranquilidade e o acolhimento da cidade, ela não conseguiu mais se desligar da ideia de viver na Serra Gaúcha. Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, Elisa deixou para trás uma rotina intensa na área da saúde para construir uma vida mais calma no Sul. “Eu andava por aqui e a sensação era de que vivi aqui a vida inteira”, relembra.
Na época, ela já era mãe de Maísa, hoje com onze anos. Ao engravidar de Helena, sua segunda filha, Elisa decidiu concretizar a mudança para a Serra, priorizando a qualidade de vida e deixando a profissão de nutricionista em segundo plano para se dedicar à família.
Um diagnóstico inesperado
Elisa chegou a Canela grávida de cinco meses. Durante toda a gestação, a ciência não deu pistas do que estava por vir. Ela realizou acompanhamentos no Rio de Janeiro e em Canela, e nenhum exame indicou qualquer alteração. Ultrassonografias morfológicas e exames específicos para detectar a Síndrome de Down apresentaram resultados dentro da normalidade. Nem mesmo avaliações detalhadas, como a ultrassonografia 3D e o ecocardiograma fetal, apontaram suspeitas.
A revelação veio da forma mais surpreendente possível: no momento do parto, no Hospital de Canela. Logo após o nascimento de Helena, a pediatra informou que a bebê apresentava características da Síndrome de Down. A confirmação veio posteriormente, por meio do exame de cariótipo realizado pelo sistema público, que identificou a trissomia completa do cromossomo 21.
O impacto foi imediato. Sozinha na cidade e longe da família, Elisa relembra que o medo tomou conta nas primeiras horas. “A pediatra veio e perguntou: ‘Mãe, você conhece a Síndrome de Down? A Helena tem características’. Meu mundo desabou por duas horas no pós-parto”, confessa. Apesar do susto inicial, o acolhimento encontrado em Canela foi determinante para a permanência da família. Elisa destaca o atendimento humanizado no hospital e o suporte imediato oferecido pela rede pública de saúde.
O apoio e uma nova perspectiva
Helena iniciou as terapias aos quatro meses de vida, com fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia. “Tudo o que eu sei que é direito dela, aqui eu consigo. No Rio, eu não conseguiria”, afirma com gratidão. Hoje, aos dois anos, Helena é descrita pela mãe como uma “espoletinha”: uma criança feliz, bem-humorada e que já arrisca as primeiras palavras, como “mamãe” e “mana”. Além das terapias, ela também frequenta a creche regular.
Além dos atendimentos de saúde, Elisa também conta como o fornecimento de fraldas e acesso a exames, serviços que, segundo ela, seriam muito mais difíceis de obter no Rio de Janeiro, mesmo com plano de saúde.
Rede de apoio construída aos poucos
Sem familiares por perto, Elisa construiu sua rede de apoio com os próprios profissionais que acompanham Helena. Terapeutas e assistentes sociais tornaram-se referências no seu dia a dia. Recentemente, a estrutura familiar ganhou um reforço: um primo mudou-se do Rio de Janeiro para auxiliá-la na rotina.
O dia a dia é intenso. Elisa leva as filhas para a escola pela manhã, trabalha como motorista de aplicativo durante o dia e organiza a casa e os cuidados com Helena no restante do tempo. Mesmo com os desafios, ela nunca cogitou retornar ao Rio. “Quando vi que ela poderia ter qualidade de vida e que tudo dependia da estimulação e do cuidado, decidi ficar”, afirma.
Um olhar sobre a maternidade
Mesmo compartilhando conosco a rotina intensa da maternidade atípica, Elisa prefere preservar a imagem da filha nas redes sociais. Discreta, ela evita expor Helena publicamente e escolhe viver esse processo de forma mais reservada, priorizando a privacidade.
Para Elisa, a experiência trouxe uma nova forma de enxergar a vida e um novo significado ao Dia das Mães. O medo inicial deu lugar à adaptação e à confiança. Ao olhar para trás, ela resume o que gostaria de ter ouvido no momento do diagnóstico: “Tudo se encaixa. Tudo se resolve”.
Neste Dia das Mães, a história de Elisa e Helena nos lembra que ser mãe é, acima de tudo, ter a capacidade de se recalcular, de mudar de rota. Em Canela, Elisa encontrou mais do que tranquilidade: encontrou o suporte para garantir o desenvolvimento da filha e a certeza de que o destino, de um jeito ou de outro, sabe encontrar o seu lugar.
