Jornalismo, contexto e os tempos de julgamento instantâneo
Na semana passada, a Folha colocou no ar seu editorial especial de Dia do Trabalhador. Um projeto que nos deu orgulho e que mostrou, mais uma vez, a força das histórias reais da nossa comunidade.
Gente simples, batalhadora, que ajuda a construir diariamente a Canela que conhecemos.
Nesta semana, por iniciativa da nossa nova jornalista, Elisa Hengemühle, com curadoria da Bethy Schons, damos sequência a esta proposta editorial com um especial de Dia das Mães.
E talvez não exista tema mais humano para mostrar como existem diferentes caminhos para se chegar ao mesmo abraço.
Na pauta, mães atípicas, mães adotivas, maternidade tardia e mulheres que vivem diariamente, cada uma à sua maneira, os desafios, as dores, os medos e as recompensas de ser mãe.
Fica o convite para ler, refletir e, provavelmente, se emocionar com os relatos. As matérias estarão em destaque na página inicial do Portal da Folha, com chamadas também pelas nossas redes sociais.
Por outro lado, é curioso como uma mesma imagem pode levar a diferentes interpretações.
Chegamos a mais uma sexta-feira de três turnos. Daquelas em que o dia começa cedo, passa por transmissão ao vivo de final de campeonato e ainda emenda programa jornalístico na manhã seguinte.
Mas, desta vez, com uma sensação meio amarga na boca.
A estafa mental de tentar se manter equilibrado, e manter um editorial equilibrado, é muito grande. Tão grande quanto a responsabilidade de quem informa, opina, transmite, media e, muitas vezes, acaba sendo colocado no centro de debates que ultrapassam em muito uma simples publicação.
Não sei se parafrasearia Humberto Gessinger dizendo que “o preço que se paga às vezes é alto demais”. Porque, por outro lado, a profissão também recompensa.
Ela recompensa quando a comunidade se mobiliza por uma causa importante. Quando uma transmissão emociona famílias. Quando uma reportagem ajuda alguém. Quando uma denúncia gera resultado. Quando uma cidade debate seus próprios problemas em vez de apenas fingir que eles não existem.
Mas os tempos mudaram.
Canela mudou.
O jornalismo mudou.
E a internet transformou até cidades do interior em arenas permanentes de julgamento, recortes e interpretações instantâneas.
Nesta semana, a Folha tomou conhecimento de uma ação judicial movida pelo Ministério Público Federal em razão de uma charge publicada em seu espaço editorial. O caso será tratado com a seriedade que exige, pelas vias adequadas e com o acompanhamento da nossa assessoria jurídica.
Mas, para além do processo, há uma reflexão necessária sobre o tempo em que vivemos.
Uma mesma imagem pode ganhar leituras diferentes quando circula fora do ambiente em que nasceu. E, quando o contexto não acompanha a imagem, abre-se espaço para interpretações incompletas, distantes da realidade local ou carregadas por julgamentos instantâneos.
No jornalismo local, contexto não é detalhe. É chão. É endereço. É história. É memória coletiva. É saber o que aconteceu antes, quem foi afetado, quais instituições se moveram, quais conflitos seguem abertos e por que determinado assunto mobiliza tanto uma comunidade.
A Folha acredita nas instituições, respeita o devido processo e seguirá fazendo jornalismo com independência. Não vamos abandonar a cobertura dos temas difíceis da comunidade, nem aceitar que o debate público seja reduzido a recortes descolados de seu contexto.
Talvez esse seja um dos grandes desafios do jornalismo atual: continuar informando, refletindo e debatendo temas sensíveis sem perder equilíbrio, humanidade e responsabilidade, mesmo em tempos em que quase tudo vira torcida.
Seguimos.
Porque, no fim das contas, apesar do desgaste, do peso e das cicatrizes que a profissão deixa pelo caminho, ainda acreditamos que o silêncio nunca ajudou comunidade alguma.