Um projeto desenvolvido pela orientadora educacional Ângela Gobbi Farina tem promovido mudanças no comportamento e na convivência de alunos do Ensino Médio da escola estadual Danton Corrêa da Silva, em Canela. A iniciativa, chamada de “Círculo Restaurativo”, surgiu a partir da observação de situações recorrentes de bullying, cyberbullying, desrespeito aos professores e dificuldades de convivência dentro das salas de aula.
Segundo Ângela, a ideia nasceu logo após sua chegada à escola, em fevereiro deste ano, quando começou a acompanhar mais de perto a rotina dos estudantes e as demandas apresentadas pelos professores. O ambiente escolar é, por definição, um espaço de aprendizado técnico, mas para a orientadora educacional, ele precisa ser, antes de tudo, um espaço de formação humana.
O caso envolveu alunos do Ensino Médio e mobilizou a escola, as famílias e autoridades policiais. A partir disso, surgiu a necessidade de trabalhar com os estudantes questões relacionadas à responsabilidade, respeito e consequências legais de determinadas atitudes. “Eu comecei a observar o comportamento dos alunos e a reclamação dos professores em relação ao bullying. Depois veio uma demanda muito forte de cyberbullying, inclusive com necessidade de denúncia na delegacia”, relata.
Ângela explica que muitos adolescentes ainda acreditam que, por serem menores de idade, não podem ser responsabilizados pelos próprios atos. “Eles precisam entender que existem responsabilidades civis e legais. Precisam saber o que é crime, o que é bullying, o que é desacato e quais são as consequências”, destaca.
Projeto piloto
A orientadora decidiu então criar um projeto piloto com a turma 224, uma das que mais apresentava dificuldades de convivência e disciplina. A proposta foi baseada nos círculos restaurativos e círculos da paz, metodologia que busca promover escuta, diálogo e reconstrução das relações.
O primeiro encontro foi voltado exclusivamente para a escuta dos estudantes. Em roda, os alunos tiveram espaço para falar sobre suas vivências, sentimentos e dificuldades, enquanto os demais ouviam sem interrupções. “Foi um momento muito emocionante. Vieram relatos sobre família, trabalho, dificuldades pessoais e relações dentro da escola. A partir dali, conseguimos criar empatia e entender melhor cada aluno”, conta a orientadora.
Após essa etapa, a escola passou a contar com uma rede de apoio formada por diferentes profissionais convidados para conversar com os estudantes. Participaram do projeto a comissária de polícia Melissa, a advogada Flora Metz, as conselheiras tutelares Ana Paula Justo e Ana Júlia Colombo, além do psicólogo Marco Aurélio e integrantes da Brigada Militar.
Cada encontro abordou temas diferentes, como direitos e deveres dos adolescentes, consequências legais do bullying e cyberbullying, responsabilidade civil, respeito às autoridades, saúde emocional e sexualidade. Segundo Ângela, os alunos participaram ativamente das conversas e aproveitaram os momentos para tirar dúvidas e compartilhar experiências.
Mudanças percebidas
Os resultados começaram a ser percebidos dentro da própria sala de aula. Professores relataram melhora no comportamento da turma, maior atenção durante as aulas e redução de atitudes desrespeitosas. “Hoje os professores conseguem dar aula para a turma 224. Eles estão conseguindo avançar no conteúdo, os alunos se respeitam mais e houve melhora na convivência”, afirma Ângela.
Os próprios estudantes reconhecem as mudanças. Para o aluno Otávio Boelter, o projeto ajudou a turma a enxergar os próprios problemas e assumir responsabilidades. “A responsabilidade mudou muito. Cada um começou a perceber seus erros e entender que certas atitudes estavam erradas”, relata.
Já Ivan Millan destaca que o círculo restaurativo ajudou na integração entre os colegas. “Eu consegui conhecer melhor a turma e percebi que tinha muitos preconceitos sobre algumas pessoas. Isso ajudou bastante”, comenta.
O estudante Pedro Henrique Bortoli afirmou que o projeto contribuiu para melhorar a concentração nas aulas e o compromisso com as atividades escolares. “Hoje a turma presta mais atenção e melhorou muito a entrega dos trabalhos”, diz.
Outro estudante da turma, Otávio Araújo, também destaca que houve melhora significativa no respeito entre os colegas e na relação com os professores após a realização do projeto. “Antes tinha muita bagunça, gritos e desrespeito entre nós mesmos e com os professores. Agora a turma está mais responsável e o clima melhorou bastante”, afirma.
Continuidade do projeto
Diante dos resultados positivos, a intenção da escola é ampliar o projeto para outras turmas, principalmente os demais segundos anos e também os primeiros anos do Ensino Médio, considerados etapas importantes no processo de adaptação e convivência escolar.
Para Ângela, o trabalho vai além de melhorar o comportamento dentro da sala de aula. A proposta busca preparar os estudantes para a vida em sociedade, reforçando valores como respeito, responsabilidade, empatia e diálogo. Segundo ela, muitos adolescentes carregam conflitos familiares, emocionais e sociais que acabam refletindo no ambiente escolar, e abrir espaços de escuta tem sido fundamental para aproximar os alunos da escola e dos professores.
A expectativa agora é fortalecer ainda mais a rede de apoio formada pelos profissionais parceiros e dar continuidade aos círculos restaurativos ao longo do ano letivo, consolidando uma cultura de paz e convivência mais saudável dentro da comunidade escolar.
