Há 24 anos dedicando a vida ao local, Lauro compartilha os bastidores da transformação do complexo de Nossa Senhora de Caravaggio.
Quem visita o imponente Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Canela, cercado por uma estrutura que acolhe dezenas de milhares de romeiros, mal consegue imaginar que o início de tudo começou sob estradas de chão batido e muita persistência. Para resgatar como o complexo religioso se transformou no coração da devoção da cidade, conversamos com o administrador voluntário Lauro Drechsler, que acompanhou de perto boa parte das mudanças realizadas nas últimas décadas.
A história da Romaria e Festa em Honra a Nossa Senhora de Caravaggio de Canela começou oficialmente em 1960. Conforme registros do próprio Santuário, a primeira edição aconteceu logo após Angela Rigotto doar a imagem da santa à comunidade. Na época, o cônego João Marchezzi, então pároco da cidade, decidiu que a imagem deveria permanecer no Parque Saiqui, espaço que mais tarde se tornaria o atual Santuário de Caravaggio.
Ainda no início da década de 1960, foi construída a primeira capela do local, onde até hoje são celebradas missas durante todo o ano. O espaço também se tornou ponto de devoção dos fiéis, que deixam no santuário objetos em agradecimento por graças alcançadas, como muletas, fotografias, capacetes e outras homenagens.
A ligação de Seu Lauro com Caravaggio começou muito antes de assumir funções administrativas. Aos 12 anos, ele já ajudava o tio na antiga tenda de bebidas montada durante a festa. “A mãe sempre preparava uma roupa nova para virmos à festa de Caravaggio. Era o grande evento do ano”, relembra. O ponto de encontro da família caso alguém se perdesse na multidão? “Era sempre naquela pedra”, conta, referindo-se ao local onde hoje está o Monumento da Prece.
A imagem de Nossa Senhora foi colocada sobre uma pedra entre duas mãos em posição de oração, formando o chamado Monumento da Prece. O espaço se transformou em um dos símbolos do Santuário e, ao longo do ano, recebe milhares de devotos que acendem velas, fazem orações e deixam manifestações de fé.
Foi em 2000 que Lauro e a esposa se aproximaram oficialmente da organização da festa, ao serem convidados para atuar como festeiros. Naquela época, a estrutura era muito diferente da atual. As celebrações aconteciam na parte mais alta do parque e praticamente não existiam os espaços que hoje recebem milhares de romeiros todos os anos. O churrasco e o galeto eram servidos de forma simples, enquanto as famílias estendiam cobertores sob as árvores para almoçar. “A maionese era servida em pratinhos de compensado de madeira”, relembra.
Em 2004, Lauro assumiu a administração direta da área de Caravaggio. Segundo ele, o espaço enfrentava dificuldades estruturais e financeiras naquele período. Foi então que começou a nascer o projeto de transformar o local em um grande centro de acolhimento religioso e turístico.

O primeiro grande passo foi a construção do Centro de Eventos. O projeto começou sem recursos em caixa, mas contou com o apoio da comunidade e de voluntários. “Quando colocamos a pedra fundamental, o bispo da diocese olhou o projeto e riu da nossa cara. Disse para criarmos galinhas para vender ovos porque não sabia quantos anos levaríamos para terminar aquilo. Em três anos o prédio estava de pé”, recorda Lauro.
Hoje, o Centro de Eventos possui cerca de 2.150 metros quadrados e é utilizado durante todo o ano para eventos turísticos, religiosos e de negócios. Durante a Romaria, o espaço se transforma em praça de alimentação e palco para apresentações musicais, com capacidade para acomodar aproximadamente 1.800 pessoas.
Com a estrutura pronta, o Santuário passou a contar também com uma importante fonte de renda permanente por meio do aluguel do espaço para casamentos, encontros e confraternizações ao longo do ano.
Outro marco importante foi a inauguração do restaurante do Santuário, em 2011. Construído com vista panorâmica para o Monumento da Prece, o espaço possui capacidade para cerca de 350 lugares e também auxilia financeiramente na manutenção das obras e atividades do complexo religioso.
Ao longo dos anos, vieram ainda a recuperação de prédios antigos, melhorias na infraestrutura, ampliação das áreas de circulação e mais de três mil metros de calçamento construídos em grande parte através de trabalho voluntário.
Entre 2012 e 2013, uma parceria com a Prefeitura de Canela possibilitou a ampliação da área próxima à igreja. Através de uma permuta de terrenos, o Santuário conquistou o espaço onde hoje funciona o estacionamento utilizado durante as romarias.
Atualmente, o maior desafio da comunidade é a construção da nova Igreja do Santuário de Caravaggio de Canela. O projeto prevê uma estrutura com aproximadamente 1.600 metros quadrados e capacidade para cerca de 500 pessoas sentadas. Inspirada na Catedral de Caravaggio, na Itália, a nova igreja busca trazer características da arquitetura neoclássica ao complexo religioso.
Segundo Lauro, tudo começou sem recursos suficientes sequer para custear a documentação das obras. Mesmo assim, a comunidade abraçou a ideia. Aos poucos, começaram a surgir doações de materiais, ajuda voluntária e campanhas de arrecadação.
O trabalho coletivo se tornou uma das principais marcas da história do Santuário. Empresas doaram concreto, moradores participaram de mutirões e voluntários passaram a atuar em diferentes funções. Atualmente, cerca de 140 pessoas trabalham diretamente na organização da Romaria de Caravaggio.
Seu Lauro faz questão de enfatizar que todo o seu trabalho ao longo desses 24 anos é voluntário. Para ele, a confiança da comunidade foi construída através da transparência. Após cada edição da Romaria, a organização realiza reuniões para apresentar aos voluntários tudo o que foi arrecadado e investido. “Quando as pessoas sabem onde o dinheiro está sendo aplicado, elas ajudam”, afirma.
Há cerca de duas décadas, a festa recebia aproximadamente 5 mil pessoas. O acesso ainda era feito por estrada de chão batido e, em dias de chuva, muitos romeiros chegavam ao local com barro até a metade da canela.
Hoje, o cenário é completamente diferente. A Romaria e Festa de Caravaggio se tornou um dos maiores eventos religiosos de Canela, reunindo entre 40 mil e 60 mil pessoas nos três principais dias de celebração. Em 2011, o parque chegou a ultrapassar a marca de 100 mil visitantes vindos de diversas cidades do Estado.
Além da dimensão religiosa, o espaço também passou a assumir importância turística e cultural para a cidade. O parque, que conta com cerca de 7,5 hectares de mata nativa e infraestrutura de acolhimento aos visitantes, recebe ao longo do ano missas, encontros, eventos juvenis e iniciativas como os Caminhos de Caravaggio, percurso de mais de 200 quilômetros realizado por peregrinos vindos de diferentes partes do país.
O crescimento mais expressivo, segundo Lauro, aconteceu entre os jovens. O Dia da Juventude, que começou reunindo cerca de mil participantes, hoje atrai mais de 10 mil jovens de toda a Diocese, abrangendo regiões como Serra, Vale dos Sinos e Paranhana.
Enquanto acompanha as obras da futura igreja e os preparativos para mais uma edição da Romaria, Seu Lauro acredita que o Santuário ainda deve crescer muito nos próximos anos. Para ele, o local já ultrapassou o papel de espaço religioso e se consolidou como um dos grandes símbolos de fé, acolhimento e identidade cultural de Canela.
