Canela,

14 de julho de 2026

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CARAVAGGIO 2026

ESPECIAL

Caminhos de Caravaggio: Uma jornada de fé e superação que transformou a vida de três peregrinos de Canela

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Duzentos quilômetros separam o início de uma jornada e a transformação de uma vida. Para os irmãos Márcia Opptiz e José Roberto de Oliveira, e a amiga Regiane Raymundo, moradores de Canela, o mês de março foi o cenário de um desafio que testou os limites do corpo, da mente e do espírito: a caminhada pelos Caminhos de Caravaggio. Durante nove dias, entre os dias 20 e 29 de março, o trio percorreu o trajeto que liga o Santuário de Canela ao Santuário de Farroupilha, enfrentando o calor intenso, subidas íngremes de até mil metros de altitude e o isolamento do interior da Serra Gaúcha.

Para que a caminhada fosse possível, um quarto elemento foi indispensável: Cássio, companheiro responsável pelo carro de apoio. Foi ele quem estudou mapas, organizou os trajetos, definiu pontos de parada e garantiu água, alimentação e suporte nos momentos mais difíceis do caminho.

O despertar da vontade

A ideia começou com Márcia, há cerca de um ano, alimentada pelo desejo de vivenciar a famosa rota de peregrinação. Após convites recusados e adiamentos, a parceria se firmou com a amiga Regiane e, de última hora, com o irmão Beto.

O desejo cresceu aos poucos, mas a preparação exigiu mais do que ela imaginava. No início, a caminhada parecia apenas um desafio físico. Depois dos primeiros treinos, veio a percepção de que o corpo precisava estar preparado para enfrentar dias seguidos de esforço intenso. Márcia passou a frequentar academia, realizar caminhadas longas e buscar acompanhamento nutricional, principalmente por conta das restrições alimentares que possui por ser celíaca e intolerante à lactose. “Na primeira vez que planejei ir e não deu certo, ainda bem. Eu não tinha noção de que precisaria treinar tanto. Achava que era ‘só caminhar'”, confessa Márcia.

Além do preparo físico, a busca pelo equipamento certo foi uma jornada à parte. Em lojas especializadas, descobriram tecnologias essenciais, como as meias antibolhas e calçados específicos para trekking.

O trajeto percorrido

A rota dos Caminhos de Caravaggio é um zigue-zague impressionante pelo interior da Serra. O grupo partiu de Canela em direção a Gramado, retornando para dormir em casa no primeiro dia. A partir do segundo, a entrega foi total, passando por localidades como Vila Oliva, Santa Lúcia do Piaí, Nova Petrópolis, Picada Café (Morro do Bom Pastor), Vila Cristina, Feliz, Alto Feliz e, finalmente, Farroupilha.

Os trechos mais difíceis, segundo o grupo, foram a subida da Ponte do Raposo até Vila Oliva e a chegada a Santa Lúcia do Piaí. Em média, a rotina começava às 5h da manhã, com a caminhada iniciando às 6h e estendendo-se por 6 a 7 horas diárias, parando no início da tarde para fugir do sol mais forte.

Houve situações em que o grupo se perdeu no caminho, precisou pedir ajuda a moradores locais e encontrou apoio inesperado de pessoas pelo trajeto. “Eu comecei a ficar com fome, precisava parar e comer. A mente já não processava os mapas que o Cássio tinha passado”, conta Márcia.

Ao longo da caminhada, o trio ficou hospedado em pousadas, seminários e locais de acolhimento preparados para receber peregrinos. Em muitos desses lugares, encontraram apoio, comida, descanso e carinho de pessoas acostumadas a receber quem percorre o Caminho de Caravaggio. Eles destacaram o acolhimento caloroso da Escola Anchieta e de uma pousada em Nova Petrópolis, onde, após uma caminhada sob chuva forte e frio, a proprietária preparou um escalda-pés com sal grosso e flores para os caminhantes.

Durante os 200 km, o grupo também carimbou o chamado “Passaporte do Peregrino”, documento que registra a passagem pelos pontos oficiais do Caminho de Caravaggio.

Por outro lado, o grupo faz um alerta para futuros peregrinos: o custo é elevado e a estrutura de apoio ao turismo religioso deixa a desejar, inclusive no ponto de partida em Canela. “Em todo o trajeto faltam setas amarelas; muitas são retiradas ou colocadas erradas para o pessoal se perder”, comenta Márcia.

O verdadeiro sentido: desapego, silêncio e encontro spiritual

Apesar das bolhas, do cansaço extremo e das noites mal dormidas, as memórias que ficam são de contemplação. Lugares como a Casa Colombo, uma vinícola em um vale antes de chegar a Farroupilha, marcaram os olhos e a alma do grupo.

Márcia conta que a caminhada serviu como uma forma de reencontro consigo mesma. Já Beto define a experiência como uma busca espiritual.

Para Márcia, o maior aprendizado foi a paciência e o desapego. “O celular tu quase não pega. Tu entra em um silêncio onde vêm lembranças da infância, da adolescência. É um caminho de desapego, de perceber que a gente carrega coisas demais na vida, tanto materiais quanto emocionais. A vida pode ser mais leve.”

Para Beto, a caminhada foi a continuação de uma busca que já trilha há quase nove anos dentro da igreja. “A gente consegue essa busca nas caminhadas em silêncio. Vamos pensando melhor, acalmando a mente”, reflete.

Ao chegarem ao Santuário de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha, no sábado, dia 29, a emoção transbordou em lágrimas. O certificado de conclusão do caminho foi recebido com orgulho, mas o maior resultado da experiência ficou além do papel.

O retorno para casa trouxe um choque inesperado: o excesso de barulho e a velocidade da rotina. “Quando voltamos e encontramos todo aquele movimento da cidade, percebemos o quanto vivemos no automático”, conta Márcia.

Para quem deseja enfrentar o Caminho de Caravaggio, eles deixam alguns conselhos: respeitar os limites do corpo, realizar treinos antes da viagem, ter foco psicológico e, acima de tudo, entender que a caminhada vai muito além do desafio físico. “É um caminho de desapego. A gente percebe que carrega peso demais, tanto material quanto emocional”, resume Márcia.

No fim, os 200 quilômetros percorridos não foram apenas uma distância vencida. Foram também um percurso interno, feito entre fé, silêncio, encontros e transformação.