Quando um colunista escreve um parágrafo e apaga antes de publicá-lo, o censurado não é o teclado…
Nas últimas semanas, muita gente perguntou por que diminuíram as colunas de opinião da Folha de Canela. Principalmente as políticas, como esta, a 360 Graus e a Opinião Forti, do Cabelinho.
A resposta é simples.
Não faltaram assuntos.
Sobrou prudência.
Quem trabalha com jornalismo sabe que uma notícia incomoda. Uma investigação incomoda mais ainda. Mas existe algo que passou a gerar um desgaste maior: emitir uma opinião.
E isso diz muito sobre o tempo em que estamos vivendo.
Não estou falando de direita ou de esquerda. Nem de governo ou de oposição. Estou falando da dificuldade crescente de dizer o que se pensa sem que a conversa deixe de ser sobre a ideia e passe a ser sobre quem teve a coragem de dizê-la.
Nos últimos anos, a Folha sentiu isso na pele.
Uma charge virou alvo de uma ação civil pública. Depois veio um procedimento criminal. Houve dias em que discutimos mais com advogados do que com jornalistas se determinada publicação podia ou não ir ao ar.
E não, não reclamo de responder pelos nossos atos. Isso faz parte da profissão.
O que preocupa é outra coisa.
É quando o medo começa a sentar à mesa da reunião de pauta.
Quando uma charge deixa de ser publicada não porque é injusta ou mal feita, mas porque alguém pergunta: “Mas será que vale toda essa dor de cabeça?”
Quando um articulista escreve um parágrafo e, logo em seguida, apaga.
Quando, falando bem a verdade, até a caneta pensa duas vezes antes de riscar o papel.
Esse talvez seja o efeito mais perverso do ambiente em que vivemos.
Não é convencer quem pensa diferente.
É fazer com que as pessoas deixem de pensar em voz alta.
As redes sociais transformaram qualquer divergência em um campeonato de rótulos. O policial deixa de ser um indivíduo para representar toda uma corporação. O empresário passa a simbolizar uma classe inteira. O jornalista deixa de ser avaliado pelo que escreveu e passa a ser julgado pela narrativa que cada leitor resolveu criar sobre ele.
Na Folha já fomos chamados de vendidos para o governo e, poucos dias depois, de perseguidores do mesmo governo.
Conforme muda a manchete, mudam apenas os acusadores.
Isso mostra que, muitas vezes, o problema não está no conteúdo.
Está na dificuldade de aceitar que alguém possa pensar diferente.
E vou dizer uma coisa que aprendi nesses anos todos de redação: quem trabalha para desagradar apenas um lado acaba fazendo propaganda. Quem trabalha para desagradar os dois, de vez em quando, provavelmente ainda está fazendo jornalismo.
O resultado desse ambiente é que cada vez mais gente prefere o silêncio.
E uma sociedade em que as pessoas têm medo de opinar dificilmente produz boas ideias, boas soluções ou bons debates.
Continuaremos respondendo por tudo o que publicarmos. Se errarmos, deveremos corrigir. Sempre foi assim e continuará sendo.
Aliás, reconhecer um erro e pedir desculpas nunca foi sinal de fraqueza. Muito pelo contrário. É um gesto de maturidade, de humildade e de respeito por quem está do outro lado.
Isso vale para mim, vale para o prefeito, vale para o promotor e vale para qualquer pessoa que exerça uma função pública ou tenha voz na sociedade.
Quem admite um erro não diminui sua autoridade.
Eleva o debate.
O que não podemos aceitar é que o medo passe a escolher as pautas da redação.
Porque, no dia em que a caneta tiver mais receio das consequências do que compromisso com a verdade, ela deixará de cumprir a sua função.
E aí, meu amigo, quem perde não é o jornalista.
É a comunidade inteira.
Porque um jornal que escreve apenas aquilo que é confortável publicar deixa de informar.
Passa apenas a confirmar aquilo que cada um já queria ler.